CARLOS DRUMMOND

 

Carlos Drummond de Andrade


Autobiografia de Drummond



*Publicada em Confissões de Minas (Ensaios e crônicas). 1944, Rio de Janeiro, Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia, relutei a princípio, por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. Refleti logo, porém, que, sendo inevitável a biografia, era preferível que eu próprio a fizesse, e não outro. Primeiro, pela autoridade natural que me advém de ter vivido a vida. Segundo, por que, praticando aparentemente um ato de vaidade, no fundo castigo meu orgulho, contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minha passagem pelo mundo, e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa, com que o redator da revista quisesse sincero ou não gratificar-me.

Isto posto, declaro que nasci em Itabira, Minas Gerais, no ano de 1902, filho de pais burgueses, que me criaram no temor de Deus. Ao sair do grupo escolar, tomei parte da guerra européia (pesa-me dizê-lo) ao lado dos alemães. Quando o primeiro navio mercante brasileiro foi torpedeado, tive que retirar a minha posição. A esse tempo já conhecia os padres alemães do Verbo Divino (rápida passagem pelo Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte). Dois anos em Friburgo, com os jesuítas. Primeiro aluno da classe, é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-me como um anjo, tinha saudades da família, e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por "insubordinação mental". O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu, alguns anos depois, num desastre de bonde na Rua São Clemente. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Perdi a Fé. Perdi tempo. E, sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Mas ganhei vida e fiz amigos inesquecíveis.

Casado, fui lecionar geografia no interior. Voltei a Belo Horizonte, como redator de jornais oficiais e oficiosos. Mário Casassanta levou-me para a burocracia, de que tenho tirado o meu sustento. De repente, a vida começou a impor-se, a desafiar-me com seus pontos de interrogação, que se desmanchavam para dar lugar a outros. Eu liquidava esses outros, mas apareciam novos. Meu primeiro livro, Alguma Poesia (1930), traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. Já em Brejo das Almas (1934), alguma coisa se compôs, se organizou; o individualismo será mais exacerbado, mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume, Sentimento do Mundo (1940). Só as elementares: meu progresso é lentíssimo, componho muito pouco, não me julgo substancialmente e permanentemente poeta.

Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos. Infelizmente, exige-se pouco do nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao romancista... Mas iríamos longe nesta conversa. Entro para a antologia, não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais:

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra no meio

do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.





O poeta por Manuel Bandeira

Carlos Drummond de Andrade

Louvo o Padre, louvo o Filho,

O Espírito Santo louvo.

Isto feito, louvo aquele

Que ora chega aos sessent'anos

E no meio de seus pares

Prima pela qualidade:

O poeta lúcido e límpido

Que é Carlos Drummond de Andrade.



Prima em Alguma Poesia,

Prima no Brejo das Almas.

Prima na Rosa do Povo,

No Sentimento do Mundo.

(Lírico ou participante,

Sempre é poeta de verdade

Esse homem lépido e limpo

Que é Carlos Drummond de Andrade.)



Como é fazendeiro do ar,

O obscuro enigma dos astros

Intui, capta em claro enigma.

Claro, alto e raro. De resto

Ponteia em viola viola de bolso

Inteiramente à vontade

O poeta diverso e múltiplo

Que é Carlos Drummond de Andrade.



Louvo o Padre, o Filho, o Espírito.

Santo, e após outra Trindade

Louvo: o homem, o poeta, o amigo

Que é Carlos Drummond de Andrade.



Manuel Bandeira







Drummond: um Claro Enigma na Escuridão do Mundo e da Alma (Marlise Sapiecinski)


É quase desnecessário dizer que, superando as exigências expressionais de sua época e contribuindo para a constante renovação do modernismo, Carlos Drummond de Andrade representa, com justiça, o que de melhor se fez na poesia brasileira do século XX. Seu verso manifesta uma vontade ardente de ver e de fazer ver (A porta da verdade está aberta (...) cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia); uma forma de conhecimento a um só tempo pessoal e altamente artístico.

Poeta de vasto sortimento de memórias, dos poucos que conseguiram elevar a confissão ao nível do universal, poeta do sensível e da dura substância, poeta do obstáculo, da pedra no meio do caminho, poeta da família, da cidade que dói, poeta da anulação, da crueldade e diamante, do agudo olhar sobre a existência (Que triste são as coisas consideradas sem ênfase) – múltiplas foram as leituras provocadas por sua poesia.

Embora a inesgotável riqueza dessa poesia seja há muito assunto fora de questão (mesmo que insistimos em reivindicá-la), o que mais de perto interessa perceber é que parece ter sido, desde o princípio, potencializada pelo confronto entre duas forças fundamentais: sensibilidade e inteligência. A segunda sempre a dominar o ato criador. Forças que impõem uma série de reflexões a quem se comprometa na arte de interpretá-las. Forças que assumem um caráter particular quando se trata de um livro como Claro Enigma, em relação ao qual avulta a dimensão filosófico-existencial de composições mais do que nunca depuradas, construídas sob a gestão de um inegável rigor poético, que, numa linguagem reveladora da mais alta realização estética, harmoniosamente conjuga pensamento e emoção criativa.

Efetivamente, na medida em que sua poesia avança, uma profunda sensação de perda e desgaste envolve a viagem poética rumo à revelação que está sempre a se insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. Chega-se muito próximo à verdade, mas jamais se consegue atingir a desejada síntese. É um acentuado sentimento de fracasso que o leva a se apresentar em Claro Enigma de modo a assumir a medida de desrazão que a vida comporta, como uma resposta talvez às inquietações que já se faziam ouvir em A Rosa do Povo:Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio, (...) preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se. Como uma resposta talvez à “Procura da Poesia”, que ele sabia além, muito além, dos acontecimentos, do próprio corpo, do pensar e do sentir: O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. Além da cidade, da natureza e dos homens em sociedade. Além, enfim, da merencória infância. Como uma resposta talvez às perguntas lançadas em “Versos à boca da noite”: Escreverei sonetos de madureza?/ Darei aos outros a ilusão de calma?/ Serei sempre louco? Sempre mentiroso?/ Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? São essas as indagações de quem atingiu uma inteligência do universo/ comprada em sal, em rugas e cabelo.

Apesar de recriminado por alguns por não ter mantido as diretrizes iniciais ao longo de sua extensa obra, por ter feito muitas concessões, a verdade é que Drummond deixou rastros que apontam para muitas direções. Nele pode-se encontrar tanto o poeta que promete ajudar a destruir, com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas, a marcha do mundo capitalista, como se fora uma pedreira, uma floresta, um verme, o poeta que, de seus parcos recursos, fabrica um elefante e cotidianamente o recoloca na rua, pois ele nunca encontra o de que carecia, o de que carecemos, como também o poeta do soneto duro, do soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler, que há de pungir, há de fazer sofrer, com seu verbo antipático e impuro. Há ainda outros, muitos, poetas que não se deixam apreender de uma só vez nem almejam qualquer forma de catequização. Essa é a grande lição da poesia de Drummond: a de não se pretender lição de nada, apenas comunicar o essencial sentimento do mundo. Talvez por isso não se prenda definitivamente nem mesmo às questões de ordem mais técnica. Modernista ou clássico, naquela vertente poética inaugurada por Baudelaire e proclamada por Rimbaud, o poeta mineiro foi, sobretudo, profunda e absolutamente moderno, senão eterno: E como ficou chato ser moderno/ agora serei eterno./ Não quero ser senão eterno. Cônscio de seu ofício, assumiu completamente suas qualidades de master, de miglior fabbro. Sua poesia é feita de permanente questionamento e exigência artística.

É assim que se pode pressentir em Claro Enigma uma espécie de síntese, purificada e sóbria, do precário em que se resume toda a existência humana. A representação consciente da urgência histórica, presente de forma explícita em A Rosa do Povo, é substituída pelo olhar lançado sobre a tradição, na busca de um contato mais íntimo com o passado literário, em direção à maior pureza lírica.

Nesse momento, as crenças anteriores e a fé depositada na esperança de que havemos de amanhecer aparecem sombreadas por céticas reservas de tempo. O que antes era certeza de sim ou de não, transforma-se, na maturidade, em instâncias penetradas de dúvida, de mas, de talvez, de se. É o sentimento agudo do relativo, de que a nada se pode outorgar a condição de absoluto, de onde afloram infinitas incertezas e outras tantas desconfianças, seja em relação a validade do que escreve, da incomunicabilidade da própria poesia, seja em relação à experiência amorosa, familiar ou histórica, e, principalmente, em relação a luta fáustica pelo conhecimento.

A perda de certas ilusões coincidirá com a presença de um estilo de natureza clássica e um conseqüente distanciamento da representação social-concreta, em favor de um simbolismo abstrato, refratário à figuração social, que busca nas formas tradicionais de composição, como o soneto, novos modos de comunicação, que respondem, nesse momento, como percebeu Merquior, às exigências de seu próprio questionamento existencial e de sua aptidão a interrogar, sob a forma de símbolo, a situação espiritual de nossa época. Com efeito, a sua própria sensibilidade o levou a essa depuração, exigida talvez por um incansável espírito perquiridor.

De qualquer maneira, para além das particularidades da postura assumida na fase de Claro Enigma, toda a produção drummondiana revela, de diferentes maneiras, uma atividade lúdica da razão, como disse Alfredo Bosi, uma festa do intelecto, na famosa definição de Valéry, que penetra seu tempo de modo a apontar suas mais íntimas contradições, fiel à ética de uma poesia que nunca deixou de se espantar com a vida e com o mundo, uma poesia que apresenta uma capacidade inesgotável de surpreender.

Nesse sentido, o que de mais profundo Claro Enigma registra é o abalo que a negatividade histórica exerce sobre a consciência, intensificando a sensação de inutilidade em relação ao conhecimento adquirido. Essa crise, advinda talvez da idade madura, na verdade, se apresenta em vários níveis, alimentando perquirições que se refletem de forma decisiva na linguagem, o que não é suficiente, entretanto, para que se possa afirmar, como muitos o fizeram, entre eles Emanuel de Moraes, que as composições de Drummond, em sua maioria, saem-lhe forçadas, sem aquela vigorosa versatilidade do passado, pois o formalismo o controla. E o que é mais absurdo: dizer que se poderia admitir que se encerraria aí a carreira de Drummond, sobretudo do “poeta maior” voltado para os grandes problemas do homem e da vida; que o seu novo conceito de poesia poderia efetivamente tê-lo paralisado, já que parece ter deixado de crer na poesia como algo merecedor de preito excepcional.

Ora, o que nos parece é justamente o contrário. Essa aparente descrença no ato criativo revela, a rigor, o quanto o poeta era cioso de seu ofício, ou antes, um sentido superior de arte, uma busca ansiosa de um universalismo estético, que se perfaz numa angustiada inquietação expressiva. Severo em extremo consigo mesmo, desejaria poder deixar ao mundo seu legado de esperança, apesar do desânimo produzido pela seqüência de desilusões político-filosóficas, momento em que as canções de timbre mais comovido estão caladas e os homens surdos aos apelos da alma. Esse sentimento fica patente em sonetos como “Legado” e “Confissão”, onde, dissolvidos os ideais de criação, e já não compactuando com uma poesia que quer servir de consolo, explicitamente exposto através da fúria metapoética de “Oficina irritada”, a única reação possível é a de culpar-se por não ter conseguido comunicar o que pretendia. Diz o poeta em “Legado”:

Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

E em “Confissão” revela:

Não amei bastante meu semelhante,

não catei o verme nem curei a sarna.

Só proferi algumas palavras,

melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.

(Cego é talvez quem esconde os olhos

em baixo do catre.) E na meia-luz

tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem

e tudo o que ele implica de suave,

de concordâncias vegetais, murmúrios

de riso, entrega, amor e piedade?

Aquele desejo ético de que a palavra pudesse de alguma forma interferir no plano dos acontecimentos, definitivo nos versos de A Rosa do Povo, parece alimentar-se em Claro Enigma de pressentidas descrenças em doses de amarga ironia. Em meio a paz destroçada, antevista em “Dissolução”, poema de abertura do livro, a solução encontrada pelo poeta, no perene trânsito do mundo, é calar-se, afinal, diz ele em “Remissão”, nada resta, mesmo, do que escreves.

Apesar da antiga vontade de poder ajudar a mudar o percurso dos acontecimentos, pressente-se que qualquer transformação histórica situa-se, verdadeiramente, longe da experiência pessoal: esses monstros atuais, não os cativa Orfeu, diz o poeta em “Legado” e ironicamente conclui: De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida, restará, pois o resto se esfuma,/ uma pedra que havia no meio do caminho, referindo-se, obviamente, ao poema que se tornou a mais conhecida e citada obra poética do modernismo brasileiro: “No meio do caminho”.

Assim, imerso no crepúsculo existencial, sua linguagem se movimenta em direção a uma expressão mais puramente lírica, onde a dúvida completa a visão de um horizonte poético no qual sua própria história se perfaz em negatividade. É nesse espaço que se dá o confronto com o passado através de um diálogo há muito desejado. Dessa tentativa de ajuste avultam os versos de poemas significativos como “Os bens e o sangue” e “A mesa”, a provar, mais uma vez, que o destino do poeta gauche está irremediavelmente ligado ao menino antigo. Por tudo isso é que se pode afirmar que na obra de Drummond parece haver um movimento constante de aproximação e afastamento dos temas ancestrais, como se a condição presente paradoxalmente exigisse a negação do passado ao mesmo tempo em que requer a sua presença permanente: Como ser uma negativa maneira de te afirmar. É assim que o filho explica ao pai suas incômodas posições do tipo gauche, no poema “A mesa”.

Mergulhado numa espécie de cansaço intelectual, fatigado pela antiga procura, “A máquina do mundo” já não seduz esse eterno peregrino da estrada de Minas pedregosa com fáceis convites à leitura dos mistérios do mundo. Acostumado a interrogar cotidianamente à existência, a trilhar arduamente o próprio caminho em direção ao conhecimento que nunca se completa, ele despreza o que lhe é dado de graça pela visão que escapa a possibilidade racional de apreensão do universo e, por isso, não satisfaz o espírito perquiridor de um eu lírico cansado de desilusões.

Seja como for, o fato é que para alguns Drummond continua sendo o poeta que estreou com Alguma Poesia e se consagrou com os versos socialmente engajados de A Rosa do Povo. Nesse sentido, sem qualquer tipo de objeção ao Drummond explicitamente modernista, Nelson Ascher já se perguntara se os textos maduros e trabalhados de livros como Novos Poemas, Claro Enigma, Fazendeiro do Ar e A Vida Passada a Limpo foram suficientemente compreendidos e assimilados pela crítica de poesia brasileira. Como desconfiou Ascher, parece que a resposta é não. Mesmo reafirmando-se tantas vezes a qualidade estética dos poemas de estréia, é preciso reconhecer que eles não exemplificam todas as qualidades artísticas do poeta. Lembrar-se de Drummond somente através das citações e referências habituais a textos como “No meio do caminho” e “Poema de sete faces” ou enfaticamente repetindo o “E agora, José?” é o mesmo que ignorar uma parte substancial de sua obra, onde se podem encontrar criaçõesmenos definíveis, mas, à sua maneira perfeitas, como “Fraga e sombra” ou “A máquina do mundo”, por exemplo. Nesses momentos o poeta transcende o próprio modernismo e, completa Ascher, alcança uma modernidade mais profunda, cuja consecução envolvia refazer na sua própria obra a trajetória toda da poesia ocidental de modo não apenas a atualizar e revivificar o passado, mas a corrigir também uma parte da história da língua e do país, preenchendo as lacunas que esta havia deixado na literatura. Realizando essa façanha, Drummond, não menos do que Pessoa ou qualquer outro dentre os grandes, tornou-se vários poetas, ou melhor, um poeta múltiplo, cujo legado seus conterrâneos mal começaram ainda a avaliar (apesar da abundância dos estudos dedicados à compreensão crítica de sua obra).

Assinalando a impressionante presença de Drummond no cenário poético do século XX, para além de sua importância no quadro da poesia modernista, Heitor Ferraz lembra a resposta do poeta mineiro em dois momentos significativos da poesia brasileira: Primeiro, com a famosa geração de 45. Drummond era o alvo predileto de Lêdo Ivo e de tantos outros. O coloquialismo, os temas do cotidiano, nada disso agradava ao estilo purista que surgia, pregando a volta do soneto e dos temas ditos elevados. Drummond sentiu os ataques, mas respondeu com Claro Enigma, um livro tão desconcertante que os jovens de 45 tiveram de mudar rapidinho de discurso. E até mesmo chegaram a dizer que o poeta havia aderido ao novo programa - o que não passa de um engano de leitura. Ele havia mostrado o quanto dominava as formas clássicas a ponto de, dentro delas, manter sua forte dicção sem cair em malabarismos verbais ou numa literatura de ornamento. Num segundo momento vieram os jovens da poesia concreta. Novas cutucadas. Em 1957, Mário Faustino, apesar de reconhecer a importância de Carlos Drummond de Andrade, ‘dono do mais ponderável corpo de poemas que já se formou em nossa história literária’, foi duro na crítica: ‘O Sr. Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos poemas que publica. Não escreve a sério sobre poesia. Não faz crítica séria de livros de poesia. Ao que saibamos, não discute a sério poesia, nem oralmente nem por escrito. Cala-se. Não manifesta grande interesse pelo progresso da Poesia.’ Hoje, um texto desse calibre chega a ser risível, mas é compreensível o pito que Faustino passa em Drummond. Nesse momento, conta-nos Heitor Ferraz, ocorria a exposição de arte concreta no Ministério da Educação e Drummond não se mostrara nem um pouco entusiasmado por essas experiências. Porém, poucos anos depois, em 1962, Haroldo de Campos publica o ensaio ‘Drummond, mestre de coisas’, o único que ele dedicou ao poeta, em que aponta ‘as confluências e pontos de encontro’ entre Lição de Coisas, que acabara de ser publicado, e o programa concretista. Um ensaio que não reivindicava nenhuma ‘influência ou contágio’ da nova poesia nos poemas de Drummond, mas ao contrário: ‘foi a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certa linha da poemática drummondiana’, lembrando a inventividade bem tramada de “No meio do caminho”.


Com efeito, ao longo de sua obra, Drummond evolui continuamente em direção a atualização constante de seu instrumento lírico, utilizando-se de todos os recursos expressivos, na busca de uma depuração cada vez maior das formas poéticas, mostrando que, a rigor, não há nenhuma barreira que separe o verso livre das formas tradicionais enquanto possibilidade de expressão. É, principalmente, nesse sentido que se deve entender o modernismo classicizado de Claro Enigma, para usar uma expressão de Merquior, e não como uma pausa na evolução poética drummondiana, erroneamente chamada por Haroldo de Campos de estação neoclassizante.

Na verdade, não foram poucas as visões equivocadas sobre a obra de Drummond, especialmente em relação às publicações posteriores a A Rosa do Povo. Gilberto Mendonça Teles, por exemplo, depois de ter verificado em Claro Enigma, de forma inexata, uma total identificação com os princípios da geração de 45, chegou a dizer que Lição de Coisas é o mais atual dos livros de Drummond por sua maior adequação às experiências mais recentes da poesia brasileira, por revelar as mesmas inquietações poemáticas dos grupos de vanguarda.

De nosso ponto de vista, entretanto, apesar da pretensa abstração, longe de se afastar das preocupações com o elemento humano e com o seu tempo, como muitos querem fazer acreditar, Claro Enigma representa uma das mais intensas tentativas de compreensão da “Máquina do mundo”, no caminho pedregoso da poesia. E se alguns o consideram o livro mais isolado da obra do poeta mineiro, porque parece escapar às matrizes de sua poesia, representando o sacrifício do que era mais significativo em sua linguagem, isto é, seu caráter inventivo, em favor de uma depuração maior, outros há que entendem que o nível de realização estética que a poesia de Claro Enigma atingiu é dos mais altos de nossa língua.

Penetrar sem piedade a natureza humana e fluir em versos pelos seus condutos: esse é o canto do poeta de uma linguagem de rara densidade de pensamento, dos maiores de nosso tempo, ainda assim, infenso as seduções que corrompem. Poeta do mais verdadeiro sentimento de humildade, escravo confesso das palavras, na luta cotidiana pela expressão mais prefeita, que mesmo nos melhores momentos de sua obra é capaz de repetir:

Triste é não ter um verso maior que os literários,

é não compor um verso novo, desorbitado,

para envolver tua efígie lunar, ó quimera

que sobe do chão batido e da relva pobre.

Seja como for, construída sob a gestão de uma inteligência diabólica, como costumavam dizer Mário de Andrade e Abgar Renault, a poesia de Drummond é radicalmente problematizadora das infinitas relações do homem com o mundo, e por isso sempre caminho possível para a libertação. Pedregoso caminho, é verdade, mas enriquecido de sabedoria.

É assim que, longe de esgotar o significado da poesia contida na excelência do verbo que se revela em Claro Enigma, se compreende porque, afinal, Hegel elegeu a poesia como a arte universal, num grau superior ao das outras artes. E compreende-se, principalmente, porque o filósofo alemão entendia que toda a verdadeira arte é essencialmente uma interrogação, endereçada ao coração sensível, um apelo às mentes e aos espíritos.







SER – Carlos Drummond de Andrade



Análise do poema “Ser”, levando em consideração o poema “Procura de poesia” ambos os poemas de Carlos Drummond de Andrade. (São Paulo – Junho de 2003)



SER



O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.



Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

seu ombro nenhum.



Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato?



Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito,

não me percebeste

contudo chamava-te



como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.



O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.



O poema “Procura de Poesia” de Carlos Drummond de Andrade é um texto dividido em duas partes: na primeira a evidenciar uma contradição, Drummond nega como assunto da poesia todos os temas que constituem o seu universo poético e na segunda parte defende a idéia de que o fazer poético é desvendado como uma experiência atemporal em um ambiente comparável a um rio difícil, denominado reino das palavras.



Drummond ainda afirma que neste reino encontram-se os poemas que esperam ser escritos, estão mudos, em estado de dicionário, aguardam a realização de seu futuro criador que os deve contemplar sem desespero, sem impaciência e até sem o uso de algumas das faculdades de captação da realidade. Note-se, o poeta entra surdamente no tal reino. Ausente a audição lhe é proibido o tato, pois não deve colher o poema no chão. Ausente o tato, a visão também é imprecisa, cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra.



O poema “Procura de Poesia” seria então, não um método para elaboração de versos, nem a constatação de que para a poesia é desnecessária a determinação de temas, mas a indicação de que é débil e solitária a experiência poética e nebuloso o lugar que ambienta o ato da criação poética, lugar este onde o poeta só garantirá, ao adentrá-lo, que será testemunha de uma possibilidade, de um vir a ser.



O Poema “Ser” parece concentrar todas as sugestões do poema acima e mais, o título - além da concretude da palavra “Ser”, ente vivo animado – traz também uma contradição, pois o poema constrói-se exatamente sobre uma condição de não existência. O título supõe a negação do poema, mas é a negação que se afirma e encaminha o leitor para o sentido oculto do texto e isso se assemelha às primeiras estrofes de “Procura de Poesia” que negam a obra poética de Drummond afirmada mais tarde pelo próprio ato da procura do ato criador.



O poema “Ser” publicado no livro “Claro Enigma” é uma homenagem póstuma de Carlos Drummond, que era agnóstico – alguns o julgavam ateu - ao filho que nasceu morto, mas a poesia, como dita nos versos de “Procura de poesia” prescinde de incidentes pessoais e da revelação da morte, pelo contrário, ela existe como possibilidade, algo que pode ou não se realizar e tal poema realiza-se plenamente e em dois níveis: no nível das palavras que tomaram forma e também na manifestação do objeto de ar que constituiu esse filho - que também é palavra - encontrado pelo poeta em um reino diferenciado, semelhante ao reino das palavras do poema anterior, aqui com outro nome: o além, além do amor.



Em todas as estrofes observa-se a manifestação desse filho, com a exceção dos dois primeiros versos, em que o poeta esgota as informações objetivas daquele ser: houve um filho que não foi feito e que seria homem, mas mesmo este “seria” e este “homem” já constituem uma outra natureza que se manifesta através dos verbos relacionados durante todo o poema. No terceiro e quarto verso, por exemplo, o filho corre na brisa – o filho é o ato de correr e é brisa, mas não tem carne, não tem nem nome. É objeto de ar.



Nas estrofes seguintes o filho prossegue em sua constituição de verbo e se um verbo exprime processo, ação, fenômeno, mudança de estado, o filho é e seria a ação do verbo, talvez fenômeno, mas de tal forma incisivo na existência do poeta, que parece se inverter a relação pai e filho, relação de proteção do mais velho para mais novo, o eterno educar de uma geração a outra. No poema é o filho que apóia (abraça) o pai com o seu ombro nenhum; o filho que responde através do hálito; o filho que chama o pai de um lugar além, além do amor, (um advérbio de lugar sugerindo a materialidade do amor, substantivo abstrato por excelência) que permanece suspenso, não correspondendo a qualquer espécie de paraíso, mas algo indefinível, na totalidade do nada.

A relação chave do poema, contudo, o sentido profundo do texto, não é o encontro do pai com o homem, o filho que não vingou, mas sim a manifestação desse filho que, na sua fenomenologia, torna-se de súbito, todas as coisas que aspiram a criar-se ou que, perdidas, devem ser um marulho em nós de um mar profundo (verso de outro poema de Drummond) exprimindo a eterna aspiração humana de permanecer como essência.



O poema então fala de permanência e fala também de todas as coisas findas, muito mais que lindas (outro verso de Drummond) que também é um dos temas recorrentes da obra de Carlos Drummond de Andrade. O que se acabou é o que fica na memória: estranho paradoxo. O poema termina declarando a força da essência que o filho se constitui – ele se faz por si mesmo - e, como dito acima, afirma outro caminho Drummoniano que vai da negação à reinvenção, onde a positividade é extraída de uma atitude de oposição sistemática, circunstância também observada no poema “Procura da poesia”.



A obra de Carlos Drummond se mostra coesa no belo e profundo poema “Ser” e como segue as sugestões do primeiro poema aqui analisado, ouso fundir tais sutilezas para afirmar que o pai do poema “Ser” penetrou surdamente no reino do filho; o filho jazia sem desespero e era calma e fresca sua carne nenhuma. O filho se realizou e se consumou e correu na brisa. Era palavra e hálito. Depreendeu-se do limbo, da concha abstrata? O pai não sabe. Aceitou o tal filho que, também o chamava e o chama ainda além, além do amor, rio difícil – bem sabe o poeta- não obstante, algo permanece entre os dois - pai e filho - que se faz continuamente.











O Sobrevivente



a Cyro dos Anjos



Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade

Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia

O último trovador morreu em 1914

Tinha um nome que ninguém se lembra mais



Há máquinas terrivelmente complicadas pra as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto quente aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa de estômago para a digestão.

Um sábio declarou que falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.



Os homens não melhoraram

e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.



(Desconfio que escrevi um poema.)



Os Ombros Que Suportam O Mundo





Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.



Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.



Pouco importa venha velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 
Poema de Sete Faces






Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.



As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.



O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus,

pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.



O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.



Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.



Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.



Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.





Procura da Poesia





Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.



Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagens; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza, nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesias das coisas) elide sujeito e objeto.



Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não perca tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.



Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.



Penetras surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata.

Ei-lo sós e mudos, em estado de dicionário,

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.



Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?



Repara:

ermas de melodia e conceito, elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difpicil e se transformam em desprezo.



Resíduo



De tudo ficou um pouco

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos

pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.

Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? no trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?

Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço, o cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob tu mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.









Segredo





A poesia é incomunicável.

Fique torto no seu canto.

Não ame.



Ouço dizer que há tiroteio

ao alcance de nosso corpo.

É a revolução? o amor?

Não diga nada.



Tudo é possível, só eu impossível.

O mar transborda de peixes.

Há homens que andam no mar

como se andassem na rua.

Não conte.



Suponha que um anjo de fogo

varesse a face da terra

e os homens sacrificados

pedissem perdão.

Não peça.







Viver não dói





Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.

Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.



A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.





Versos de Deus





I



Ao sentir nos pássaros

tanta liberdade

e aéreo poder,

imagina um pássaro

superior a todos

e tão invisível

que seu vôo deixe

sensação de sonho.

Com leveza e graça

o homem pensa Deus.





II



No mais alto ramo

Deus está pousado

com uma garra apenas

e fita o mundo.

Do mais alto ramo

desfere vôo

e sai por aí

bicando as coisas,

indiferente às coisas

bicadas,

encantadas.





III



Bica-me Deus

de manso nos olhos,

antes referência

que repreensão.

Alisa o bico

no local. E dói.

Ao sumir crocita:

"Hoje te perdôo."

O que Deus perdoa,

só o sabe Deus.





IV



Deus rumina

que fazer, acaso.

Mais um terremoto?

De que proporções?

Uma nova guerra?

De quantas nações?

Que margem ceder

ao capricho do homem?

Vai nascer um artista?

Nascerão idiotas?

Surgirão robôs?





V



Ao findar o tempo

tudo se acomoda

à sua vontade.

Já não há projeto

de outro Deus ou vários.

Laços entrançados,

gemidos, crepúsculo

sempre continuado.

O homem arrependo-me

da criação de Deus,

mas agora é tarde.





in “A Paixão Medida”









Verdade





A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Verbo Ser






Que vai ser quando crescer?

Vivem perguntando em redor. Que é ser?

É ter um corpo, um jeito, um nome?

Tenho os três. E sou?

Tenho de mudar quando crescer?

Usar outro nome, corpo e jeito?

Ou a gente só principia a ser quando cresce?

É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?

Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?

Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.

Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher?

Não dá para entender. Não vou ser.

Vou crescer assim mesmo.

Sem ser Esquecer.







Unidade



As plantas sofrem como nós sofremos.

Por que não sofreriam

se esta é a chave da unidade do mundo?

A flor sofre, tocada

por mão inconsciente.

Há uma queixa abafada

em sua docilidade.

A pedra é sofrimento

paralítico, eterno.

Não temos nós, animais,

sequer o privilégio de sofrer.















Úni dúni têni



úni dúni têni

salamêni.



Balança, meu bem, balança

entre um e outro trapézio.

No verde tom da esperança,

a cor de prata do césio.



Circula o risco no espaço

como sangue nas artérias.

Os saltos mais perigosos

são fiorituras aéreas.



No limite da coragem,

no vão entre céu e terra,

um anjo luminescente

zomba da morte e da guerra.



É anjo? ou mulher? ou homem?

Sobre a pergunta sem nexo,

o novo arco-íris desdobra

todos os raios do sexo.





In "Amar se Aprende Amando"







"Um chamado João"



"João era fabulista?

fabuloso?

fábula?

Sertão místico disparando

no exílio da linguagem comum?



Projetava na gravatinha

a quinta face das coisas,

inenarrável narrada?

Um estranho chamado João

para disfarçar, para farçar

o que não ousamos compreender?



Tinha pastos, buritis plantados

no apartamento?

no peito?



Vegetal ele era ou passarinho

sob a robusta ossatura com pinta

de boi risonho?



Era um teatro

e todos os artistas

no mesmo papel,

ciranda multívoca?



João era tudo?

tudo escondido, florindo

como flor é flor, mesmo não semeada?



Mapa com acidentes

deslizando para fora, falando?

Guardava rios no bolso,

cada qual com a cor de suas águas?

sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia nome,

curva, fim,

e no destinado geral

seu fado era saber

para contar sem desnudar

o que não deve ser desnudado

e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,

civilmente mágico, apelador

e precipites prodígios acudindo

a chamado geral?

Embaixador do reino

que há por trás dos reinos,

dos poderes, das

supostas fórmulas

de abracadabra, sésamo?



Reino cercado

não de muros, chaves, códigos,

mas o reino-reino?



Por que João sorria

se lhe perguntavam

que mistério é esse?

E propondo desenhos figurava

menos a resposta que

outra questão ao perguntante?

Tinha parte com... (não sei

o nome) ou ele mesmo era

a parte de gente

servindo de ponte

entre o sub e o sobre

que se arcabuzeíam

de antes do princípio,

que se entrelaçam

para melhor guerra,

para maior festa?



“Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar.”







Turno à janela do Apartamento





Silencioso cubo de treva:

um salto, e seria a morte.

Mas é apenas, sob o vento,

a integração da noite.

Nenhum pensamento de infância,

nem saudade nem vão propósito.

Somente a contemplação

de um mundo enorme e parado.

A soma da vida é nula.

Mas a vida tem tal poder:

na escuridão absoluta,

como líquido, circula.

Suicídio, riqueza ciência...

A alma severa se interroga

e logo se cala. E não sabe

se é noite, mar ou distância.

Triste farol da ilha rosa.





Tristeza do Império





Os conselheiros angustiados

ante o colo ebúrneo

das donzelas opulentas

que ao piano abemolavam

"bus-co a cam-pi-na se-rena

pa-ra li-vre sus-pi-rar"

esqueciam a guerra do Paraguai,

o enfado bolorento de São Cristóvão,

a dor cada vez mais forte dos negros

e sorvendo mecânicos

uma pitada de rapé,

sonhavam a futura libertação dos instintos

e ninhos de amor a serem instalados nos

arranha-céus de Copacabana, com rádio e telefone automático







Três presentes de fim de ano





I



Querida, mando-te

uma tartaruguinha de presente

e principalmente de futuro

pois viverá uma riqueza de anos

e quando eu haja tomado a estígia barca

rumo ao país obscuro

ela te me lembrará no chão do quarto

e te dirá em sua muda língua

que o tempo, o tempo é simples ruga

na carapaça, não no fundo amor.





II



Nem corbeilles nem

letras de câmbio

nem rondós nem

carrão 69

nem festivais

na ilha d’amores

não esperes de mim

terrestres primores.

Dou-te a senha para

o dom imperceptível

que não vem do próximo

não se guarda em cofre

não pesa, não passa

nem sequer tem nome.

Inventa-o se puderes

com fervor e graça.





III



Sempre foi difícil

ah como era difícil escolher

um par de sapatos, um perfume.

Agora então, amor, é impossível.

O mau gosto

e o bom se acasalaram, catrapuz!

Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora

ou tem medo de dizer que é medonho?

E aquele quadro (objeto)? aquela pantalona?

Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço

a sua voz entre alto-falantes, não distingo

nenhuma voz nos sons vociferantes...

Desculpe, amor, se meu presente

é meio louco e bobo

e superado:

uns lábios em silêncio

(a música mental)

e uns olhos em recesso

(a infinita paisagem).







Torcida





"Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você."



Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina.

Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai.

Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo.

Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro

passo.

O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então?

E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer.

Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.

Torcia o nariz para o quiabo e a escarola.

Mas torcia por hambúrguer e refrigerante.

Começou a torcer até para um time.

Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você.

Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana.

Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão.

Eles também estavam torcendo para você ser bacana.

Nessas horas, você só torcia para não ter nascido.

E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido.

Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir.

E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.

Depois começou a torcer pela sua liberdade.

Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua.

Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa.

Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos

professores e para qualquer opinião dos seus pais.

Todo mundo queria era torcer o seu pescoço.

Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro.

Torceu para ser médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser

físico nuclear ou jogador de futebol.

Seus pais torciam para passar logo essa fase.

No dia do vestibular, uma grande torcida se formou.

Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você.

Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda,

contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina.

E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para

ela.

Primeiro, torceu para ela não ter outro.

Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito

magro. Descobriu que ela torcia igual a você.

E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho.

Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de

lua-de-mel.

E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida.

Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele.

Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você!"

"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) do mundo, mas a poesia (inexplicável) da vida."

Eu torço por você!





Todo dia é menos um dia





Todo dia é menos um dia;

menos um dia para ser feliz;

é menos um dia para dar e receber;

é menos um dia para amar e ser amado;

é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar !



Sim, porque calando nem sempre quer dizer

que concordamos com o que ouvimos ou lemos,

mas estamos dando a outrem a chance de pensar,

refletir, saber o que falou ou escreveu.



Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.

Mas saber calar, mais raro ainda.

E como humanos estamos sujeitos a errar.

E nosso erro mais primário, é não saber:

Ouvir e calar !



Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.

Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso

para sentir um pouco de felicidade !



Todo dia é menos um dia para dizer:

- Desculpe, eu errei !

Para dizer:

- Perdoe-me por favor, fui injusto !



Todo dia é menos um dia;

Para voltarmos sobre os nossos passos.

De repente descobrimos que estamos muito longe

E já não há mais como encontrar

onde pisamos quando íamos.

Já não conseguiremos distinguir nossos passos

de tantos outros que vieram depois dos nossos.



E se esse dia chega, por mais que voltemos;

estaremos seguindo um caminho, que jamais

nos trará ao ponto de partida.



Por isso use cada dia com sabedoria.

Ouça e cale se não se sentir bem;

Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir

interpretar melhor e saber o que quis ser dito.













Toada do amor





E o amor sempre nessa toada:

briga perdoa perdoa briga



Não se deve xingar a vida,

a gente vive, depois esquece.

Só o amor volta para brigar,

para perdoar,

amor cachorro bandido trem.



Mas, se não fosse ele,

também que graça que a vida tinha?





Tempo em fatias!





Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,

a que se deu o nome de ano,

foi um indivíduo genial;

industrializou a esperança,

fazendo-a funcionar no limite da exaustão.



Doze meses dão para qualquer ser humano

cansar e entregar os pontos.



Aí entra o milagre da renovação, e tudo

começa outra vez, com vontade

de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.







Também já fui brasileiro





Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

e aprendi na mesa dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

e todas as virtudes se negam.



Eu também já fui poeta.

Bastava olhar para mulher,

pensava logo nas estrelas

e outros substantivos celestes.

Mas eram tantas, o céu tamanho,

minha poesia perturbou-se.



Eu também já tive meu ritmo.

Fazia isso, dizia aquilo.

E meus amigos me queriam,

meus inimigos me odiavam.

Eu irônico deslizava

satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.

Hoje não deslizo mais não,

não sou irônico mais não,

não tenho ritmo mais não.





Sugar e ser sugado pelo amor



Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante boca milvalente

o corpo dois em um o gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar e ser chupado

no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.





Suas mãos





Aquele doce que ela faz

quem mais saberia fazê-lo?



Tentam. Insistem, caprichando.

Mandam vir o leite mais nobre.

Ovos de qualidade são os mesmos,

manteiga, a mesma,

iguais açúcar e canela.

É tudo igual. As mãos (as mães?)

são diferentes.





Soneto da perdida esperança





Perdi o bonde e a esperança.

Volto pálido para a casa.

A rua é inútil e nenhum auto

passaria sobre meu corpo.



Vou subir a ladeira lenta

em que os caminhos se fundem.

Todos eles conduzem ao

princípio do drama e da flora.



Não sei se estou sofrendo

ou se é alguém que se diverte

por que não? na noite escassa



com um insolúvel flautim

Entretanto há muito tempo

nós gritamos: sim! ao eterno.













Sonetilho do falso Fernando Pessoa





Onde nasci, morri.

Onde morri, existo.

E das peles que visto

muitas há que não vi.



Sem mim como sem ti

posso durar. Desisto

de tudo quanto é misto

e que odiei ou senti.



Nem Fausto nem Mefisto,

à deusa que se ri

deste nosso oaristo,



eis-me a dizer: assisto

além, nenhum, aqui,

mas não sou eu, nem isto.



Itabira do Mato Dentro - MG - 1902





Somem canivetes





Fica proibido o canivete

em aula, no recreio, em qualquer parte

pois num país civilizado

entre estudantes civilizadíssimos,

a nata do Brasil,

o canivete é mesmo indesculpável.



Recolham-se pois os canivetes

sob a guarda do irmão da Portaria.



Fica permitido o canivete

nos passeios à chácara

para cortar algum cipó

descascar laranja

e outros fins de rural necessidade.



Restituam-se pois os canivetes

a seus proprietários

com obrigação de serem recolhidos

na volta do passeio, e tenho dito.



Só que na volta do passeio

verificou-se com surpresa:

no matinho ralo da chácara

todos os canivetes tinham sumido.

Sociedade






O homem disse para o amigo:

– Breve irei a tua casa

e levarei minha mulher.



O amigo enfeitou a casa

e quando o homem chegou com a mulher,

soltou uma dúzia de foguetes.



O homem comeu e bebeu.

A mulher bebeu e cantou.

Os dois dançaram.

O amigo estava muito satisfeito.



Quando foi hora de sair,

o amigo disse para o homem:

– Breve irei a tua casa.

E apertou a mão dos dois.



No caminho o homem resmunga:

– Ora essa, era o que faltava.

E a mulher ajunta: – Que idiota.



A casa é um ninho de pulgas.

– Reparaste o bife queimado?

O piano ruim e a comida pouca.



E todas as quintas-feiras

eles voltam à casa do amigo

que ainda não pôde retribuir a visita.







Sinal de apito





Um silvo breve: Atenção, siga.

Dois silvos breves: Pare.

Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.

Um silvo longo: Diminua a marcha.

Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.

........(A este sinal todos os motoristas tomam

.........lugar nos seus veículos para movimentá-los

.........imediatamente.)





Sentimento do mundo





Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desafiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

esse amanhecer

mais que a noite.





Sentimental





Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas,

e debruçados na mesa todos contemplam

este romântico trabalho.



Desgraçadamente falta uma letra;



A Flor e A Náusea





Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cizenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.



Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.



Vomitar este tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam pra casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.



Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.



Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.



Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.



Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.







A TORRE SEM DEGRAUS



No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas.

No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato.

No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos.

No 3.° andar - tlás tlás - anoite cria morcegos.

No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando.

No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848.

No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso.

No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika.

No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível.

Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina.

No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades.

No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença.

Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário.

No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa.

No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças.

No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos.

Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre.

No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico.

No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais.

Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas.

NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola.

No 24.°, vide 13.°.

No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela?

No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentando-se.

O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira.

Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução.

Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável.

Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras.

No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas.

No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima.

No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção.

No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio.

No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.

Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões.

No 37.°, a canção



Filorela amarlina

lousileno i flanura

meleglírio omoldana

plunigiário olanin.



No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações.

No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo.

No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta.

Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência.

No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes.

No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente).











Edifício Esplendor





I



Na areia da praia

Oscar risca o projeto.

Salta o edifício

da areia da praia



No cimento, nem traço

da pena dos homens.

As famílias se fecham

em células estanques.



O elevador sem ternura

expele, absorve

num ranger monótono

substância humana.



Entretanto há muito

se acabaram os homens

ficaram apenas

tristes moradores.





II



A vida secreta da chave.

Os corpos se unem e

bruscamente se separam.



O copo de uísque e o blue

destilam ópios de emergência.

Há um retrato na parede,

um espinho no coração

uma fruta sobre o piano

e um vento marítimo com cheiro

de peixe, tristeza, viagens...

Era bom amar, desamar,

morder, uivar, desesperar

era bom mentir e sofrer

Que importa a chuva no mar?

a chuva no mundo? o fogo?

Os pés andando, que importa?

Os móveis riam, vinha a noite,

o mundo murchava e brotava

a cada espiral de abraço.



E vinha mesmo, sub-reptício,

em momentos de carne lassa,

certo remorso de Goiás.

Goiás, a extinta pureza...



O retrato cofiava o bigode.





III



Oh que saudades não tenho

de minha casa paterna.

Era lenta, calma, branca,

tinha vastos corredores

e nas suas trintas portas

trinta crioulas sorrindo,

talvez nuas, não me lembro.



E tinha também fantasmas,

mortos sem extrema-unção,

anjos da guarda, bodoques

e grandes tachos de doce

e grandes cismas de amor,

como depois descobrimos.



Chora, retrato, chora.

Vai crescer a tua barba

neste medonho edifício

de onde surge tua infância

como um copo de veneno.





IV



As complicadas instalações do gás,

úteis para suicídio,

o terraço onde as camisas tremem,

também convite à morte,

o pavor do caixão

em pé no elevador,

O estupendo banheiro

de mil cores árabes,

onde o corpo esmorece

na lascívia frouxa

da dissolução prévia.

Ah, o corpo, meu corpo,

que será do corpo?

Meu único corpo,

aquele que eu fiz

de leite, de ar,

de água, de carne,

que eu vesti de negro,

de branco, de bege,

cobri com chapéu,

calcei com borracha,

cerquei de defesas,

embalei, tratei?

Meu coitado corpo

tão desamparado

entre nuvens, ventos,

neste aéreo living!





V



Os tapetes envelheciam

pisados por outros pés.



Do cassino subiam músicas

e até o rumor de fichas.



Nas cortinas, de madrugada,

a brisa pousava. Doce.



A vida jogada fora

voltava pelas janelas.



Meu pai, meu avô, Alberto...

Todos os mortos presentes.



Já não acendem a luz

com suas mãos entrevadas.



Fumar ou beber: proibido

Os mortos olham e calam-se.



O retrato descoloria-se,

era superfície neutra.



As dívidas amontoavam-se.

A chuva caiu vinte anos.



Surgiram costumes loucos

e mesmo outros sentimentos.



- Que século, meu Deus! Diziam os ratos.

E começavam a roer o edifício.





Elegia 1938





Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas eas ações não enceram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.



Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,

e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze

ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.



Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra

e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina

e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.



Caminhas por entre os mortos e com eles conversas

sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.

Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.



Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota

e adiar para outro século a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição

porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.





Hino Nacional





Precisamos descobrir o Brasil,

Escondido atras das florestas,

com as águas dos rios no meio,

o Brasil esta dormindo, coitado.

Precisamos colonizar o Brasil.



Precisamos educar o Brasil.

Compraremos professores e livros,

assimilaremos finas culturas,

abriremos dancings e subvencionaremos as elites.



O que faremos importando francesas

muito louras, de pele macia,

alemãs gordas, russas nostálgicas para

garçonetes dos restaurantes noturnos.

E virão sírias fidelíssimas

Não convém desprezar as japonesas....



Cada brasileiro terá a sua casa

com fogão e aquecedor elétricos, piscina,

salão para conferências científicas.

E cuidaremos do Estado Técnico.



Precisamos louvar o Brasil.

Não é só um pais sem igual.

Nossas revoluções são maiores

do que quaisquer outras, nossos erros também.

E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...

Os Amazonas inenarráveis....os incríveis João-Pessoas.



Precisamos adorar o Brasil.

Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão

no nobre coração já cheio de compromissos....

se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,

por que motivo eles se juntaram e qual a razão de seus sofrimentos.



Precisamos, precisamos esquecer o Brasil.

Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,

ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.

O Brasil não nos quer! Esta farto de nós!



Nosso Brasil é no outro mundo. Este ano é o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão brasileiros?





*Hipótese*



E se Deus é canhoto

e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.







Morte do Leiteiro





Há pouco leite no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,

que ladrão se mata com tiro.



Então o moço que é leiteiro

de madrugada com sua lata

sai correndo e distribuindo

leite bom pra gente ruim.

Sua lata, suas garrafas,

e seus sapatos de borracha

vão dizendo aos homens no sono

que alguém acordou cedinho

e veio do último subúrbio

trazer o leite mais frio

e mais alvo da melhor vaca

para todos criarem força

na luta brava da cidade.



Na mão a garrafa branca

não tem tempo de dizer

as coisas que lhe atribuo

nem o moço leiteiro ignaro,

morador na Rua Namur,

empregado no entreposto,

com 21 anos de idade,

sabe lá o que seja impulso

de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo

vai deixando à beira das casas

uma apenas mercadoria.



E como a porta dos fundos

também escondesse gente

que aspira ao pouco de leite

disponível em nosso tempo,

avancemos por esse beco,

peguemos o corredor,

depositemos o litro...

Sem fazer barulho, é claro,

que barulho nada resolve.



Meu leiteiro tão sutil,

de passo maneiro e leve,

antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor

sempre se faz: passo errado,

vaso de flor no caminho,

cão latindo por princípio,

ou um gato quizilento.

E há sempre um senhor que acorda,

resmunga e torna a dormir.



Mas este acordou em pânico

(ladrões infestam o bairro),

não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta

saltou para sua mão.

Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada

liquidaram meu leiteiro.

Se era noivo, se era virgem,

se era alegre, se era bom,

não sei,

é tarde para saber.



Mas o homem perdeu o sono

e todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.

Bala que mata gatuno

também serve pra furtar

a vida de nosso irmão.

Quem quiser que chame médico,

polícia não bota a mão

neste filho de meu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,

a manhã custa a chegar,

mas o leiteiro

estatelado, ao relento,

perdeu a pressa que tinha.



Da garrafa estilhaçada,

no ladrilho já sereno

escorre uma coisa espessa

que é leite, sangue... não sei.

Por entre objetos confusos,

mal redimidos da noite,

duas cores se procuram,

suavemente se tocam,

amorosamente se enlaçam,

formando um terceiro tom

a que chamamos aurora.















Mundo Grande





Não, meu coração não é maior que o mundo.

É muito menor.

Nele não cabem nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,

por isso me grito,

por isso frequento os jornais, me exponho cruemente nas livrarias:

preciso de todos.



Sim, meu coração é muito pequeno.

Só agora vejo que nele não cabem os homens.

Os homens estão cá fora, estão na rua.

A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

Mas também a rua não cabe todos os homens.

A rua é menor que o mundo.

O mundo é grande.



Tu sabes como é grande o mundo.

Conheces os navios que levam o petróleo e livros, carne e algodão.

Visite as diferentes dores dos homens,

as diferentes dores do homens,

sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

num só peito de homem... sem que ele estale.



Fecha os olhos e esquece.

Escuta a água nos vidros,

tão calma. Não anuncia nada.

entretanto escorre nas mãos,

tão calma! vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?

Os homens submersos - voltarão?



Meu coração não sabe.

Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.

Só agora descubro

como é triste ignorar certas coisas.

(Na solidão de indivíduo

desaprendi a linguagem

com que homens se comunicam.)



Outrora escutei os anjos,

as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.

Nunca escutei voz de gente.

Em verdade sou muito pobre.



Outrora viajei

países imaginários, fáceis de habitar,

ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.

Ilhas perdem os homem.



Entretanto alguns se salvaram e

trouxeram a notícia

de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,

entre o fogo e o amor.



Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo,

entre a vida e o fogo,

meu coração cresce dez metros e explode.

- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Mãos Dadas








Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considere a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.



Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.

não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.

não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.





Namorado



Quem não tem namorado e alguém que tirou ferias não

remuneradas de sim mesmo. Namorado e a mais difícil das

conquistas. Difícil porque namorado de verdade e muito

raro. Necessita de adivinhação, de pel, de saliva, lagrima,

nuvem, quindim, brisa ou filosofia.



Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, ate

paixão e fácil. Mas namorado, mesmo, e difícil.



Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a

quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a

gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.

A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou

bandoleira: basta olhar de compreensão ou mesmo de aflição.



Quem não tem namorado não e quem não tem humor: e

quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três

pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois

amantes, mesmo assim pode não ter namorado.



Não tem namorado não e quem não sabe o gosto da chuva,

cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de

padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem

transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de

virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não

tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a

infelicidade. Namorar e fazer pactos com felicidade ainda

que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.



Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas;

de carinho escondido na hora em que se passa o filme; de

flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de

Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque

lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou

descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto

para a Escócia ou mesmo de metro, bonde, nuvem, cavalo

alado, tapete magico ou foguete interplanetário.



Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado,

fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem

namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem

de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro

dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do

amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança

própria e a do amado e sai com ela para parques,

fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento,

bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.



Não tem namorado quem não tem musica secreta com ele,

quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem

não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não

tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem

curtir; quem curte sem aprofundar. não tem namorado

quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente

no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em

plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama

sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive

cheio de obrigações; que faz sexo sem esperar o outro

ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde

solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado

quem fala sozinho, ri de si mesmo e quem tem

medo de ser afetivo.



Se você não tem namorado porque descobriu que o

amor e alegre e você vive passando duzentos quilos de

grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita,

e passeie e mãos dadas com o ar. Enfeite-se com

margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de

esperança. De alma escovada e coração estouvado,

saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.



Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem

passe debaixo de sua janela.



Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor

de contos de fada. ande como se o chão estivesse repleto

de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de

borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer

frases sutis e palavras de galanteria. se você não tem

namorado e porque ainda não enlouqueceu aquele

pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente

parecer que faz sentido.



NOSSO TEMPO

A Osvaldo Alves





I



Este é tempo de partido.

tempo de homens partidos.



Em vão percorremos volumes

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se

na pedra



Visito os fatos, não te encontro.

Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo

sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos.



Calo-me, espero, decrifo.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!



Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim busacando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.



II



Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

obscenos gestos avulsos.



Mudou-se a rua da infância.

E o vestido vermelho

vermelho

cobre a nudez do amor,

ao relento, ao vale.



Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados

vem um sopro que cresta as faces

e dissipa, na praia, as palavras.



A escuridão estende-se mas não elimina

o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,

anéis, pérolas, cigarros, lanternas,

são partes mais íntimas,

a pulsação, o ofego,

e o ar da noite é o estritamente necessário

para continuar, e continuamos.



III



E continuamos. É tempo de muletas.

Tempos de mortos faladores

e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado.

mas ainda é tempo de viver e contar.

Certas histórias não se perderam.

Conheço bem esta casa,

pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se.

A sala grande conduz a quartos terríveis,

como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa.

conduz à copa de frutas ácidas,

ao claro jardim central, à água

que goteja e segreda

o incesto, a bênção, a partida,

conduz às celas fechadas, que contém:

papéis?

crimes?

moedas?



Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,

ó surdo-mudo, depositário de mesu desfalecimentos, abre-te e conta,

moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai;

capa de poeira do pianos desmantelados, contai;

velhos selos do imperador, aprelhos de porcelana partidos, contai;

ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.

Tudo tão difícil depois que vos calaste...

E muitos de vós nunca se abriram.



IV



É tempo de meio silêncio,

de boca gelada e múrmurio,

palavra indireta, aviso

na esquina. Tempo de cinco sentidos

num só. O espião janta conosco.



É tempo de cortinas pardas,

de céu neutro, poítica

na maça, no santo, no gozo,

amor e dearmor, cólera

branda, gim com água tônica,

olhos pintados,

dentes de vidro,

grotesca língua torcida.

A isso chamamos: balanço.



No beco,

apenas um muro,

sobre ele a polícia.

No céu da propaganda

aves anunciam

a glória.

No quarto,

irrisão e três colarinhos sujos.



V



Escuta a hora formidável do almoço

na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.

Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!

Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,

olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.

Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida.

mais tarde será o de amor.



Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma, indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.

Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.

Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,

vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,

tomar conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.



Escuta a hora empadogada da volta.

Homem depois de homem, mulher, criança, homem,

roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,

homrm, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,

imaginam esperar qualquer coisa,

e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,

últimos servos do negócio, imaginam voltar pra casa,

já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade imaginam.



Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,

o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,

com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,

escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,

errar em objetos remotos e sob eles soterrado sem dor,

confiar-se ao que bem me importa

do sono.



Escuta o horrível emprego do dia

em todos os países de fala humana,

a falsificação das palavras pingando nos jornais,

o mundo irreal do cartórios onde a propriedade é um bolo com flores.

os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar,

a constelação das formigas e usuários,

a má poesia, o mau romance,

os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,

o home feio, de mortal feiúra,

passeando de bote

num sinistro crepúsculo de sábado.



VI



Nos porões da família,

orquídeas e opções

de compra e de desquite.

A gravidez elétrica

já não traz delíquios.

Crianças alégicas

trocam-se; reformam-se.

Há uma implacável

guerra às baratas.

Contam-se histórias

por correpondência.

A mesa reúne

um copo, uma faca,

e a cama devora

tua solidão.

Salva-se a honra

e a herança do gado.



VII



Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há balsamos,

para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,

dores de classe, de sangrenta fúria

e plácido rosto. E há minimos

bálsamos, recalacadas dores ignóbeis,

Lesões que nenhum governo autoriza,

não obstante doem,

melancolias insibornáveis,

ira, reprovação, desgosto

desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado

Há o pranto no teatro,

no palco? no público? nas poltronas?

há sobretudo o pranto no teatro,

já tarde, já confuso,

ele embacia as luzes, se emgolfa no linóleo,

viaminar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,

vai molhar, na raça madura, o milho ondulante,

e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,

meu olho que ri e despreza,

minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,

que polui a essência mesma do diamantes.



VIII



O poeta

declina de toda a responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

promete ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,

um verme.



O Novo Homem







O Homem será feito

em laboratório.

Será tão perfeito

como no antigório.

Rirá como gente,

beberá cerveja

deliciadamente.

Caçará narceja

e bicho do mato.

Jogará no bicho,

tirará retrato

com o maior capricho.

Usará bermuda e gola 'roulée'.

Queimará arruda

indo ao canjerê,

e do não objeto

fará escultura.

Será neoconcreto

se houver censura.

Ganhará dinheiro

e muitos diplomas,

fino cavalheiro

em noventa idiomas.

Chegará a Marte

em seu cavalinho

de ir a toda parte

mesmo sem caminho.

O homem será feito

em laboratório,

muito mais perfeito

do que no antigório.

Dispensa-se amor,

ternura ou desejo.

Seja como for

( até num bocejo )

salta da retorta

um senhor garoto.

Vai abrindo a porta

com riso maroto:

"Nove meses, eu?

Nem nove minutos."

Quem já conheceu

melhores produtos?

A dor não preside

sua gestação.

Seu nascer elide

o sonho e a aflição.

Nascerá bonito?

Corpo bem talhado?

Claro: não é mito,

é planificado.

Nele, tudo exato,

medido, bem-posto:

o justo formato,

o 'standard' do rosto

Duzentos modelos,

todos atraentes.

( Escolher, ao vê-los,

nossos descendentes. )

Quer um sábio? Peça.

Ministro? Encomende.

Uma ficha impressa

a todos atende.

Perdão: acabou-se

a época dos pais.

Quem comia doce

já não come mais.

Não chame de filho

este ser diverso

que pisa o ladrilho

de outro universo.

Sua independência

é total: sem marca

de família, vence

a lei do patriarca.

Liberto da herança

de sangue ou de afeto,

desconhece a aliança

de avô com seu neto.

Pai: macromolécula;

mãe: tubo de ensaio

e, 'per omnia secula',

livre, papagaio,

sem memória e sexo,

feliz, por que não?

pois rompeu o nexo

da velha Criação,

eis que o homem feito

em laboratório

sem qualquer defeito

como no antigório,

acabou com o Homem

Bem Feito.

















A Bomba





A bomba

é uma flor de pânico apavorando os floricultores

A bomba

é o produto quintessente de um laboratório falido

A bomba

é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles

A bomba

é grotesca de tão metuenda e coça a perna

A bomba

dorme no domingo até que os morcegos esvoacem

A bomba

não tem preço não tem lugar não tem domicílio

A bomba

amanhã promete ser melhorzinha mas esquece

A bomba

não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está

A bomba

mente e sorri sem dente

A bomba

vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados

A bomba

é redonda que nem mesa redonda, e quadrada

A bomba

tem horas que sente falta de outra para cruzar

A bomba

multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação

A bomba

chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés

A bomba

faz week-end na Semana Santa

A bomba

tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia

A bomba

industrializou as térmites convertendo-as em balísticos

interplanetários

A bomba

sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,

de verborréia

A bomba

não é séria, é conspicuamente tediosa

A bomba

envenena as crianças antes que comece a nascer

A bomba

continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba

respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais

A bomba

pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba

A bomba

é um cisco no olho da vida, e não sai

A bomba

é uma inflamação no ventre da primavera

A bomba

tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,

cobalto e ferro além da comparsaria

A bomba

tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.

A bomba

não admite que ninguém acorde sem motivo grave

A bomba

quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos

A bomba

mata só de pensarem que vem aí para matar

A bomba

dobra todas as línguas à sua turva sintaxe

A bomba

saboriea a morte com marshmallow

A bomba

arrota impostura e prosopéia política

A bomba

cria leopardos no quintal, eventualmente no living

A bomba

é podre

A bomba

gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado

A bomba

pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo

A bomba

declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade

A bomba

tem um clube fechadíssimo

A bomba

pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel

A bomba

é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris

A bomba

oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos

de paz

A bomba

não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas

A bomba

desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger

velhos e criancinhas

A bomba

não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer

A bomba

é câncer

A bomba

vai à Lua, assovia e volta

A bomba

reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação

em cadeia

A bomba

está abusando da glória de ser bomba

A bomba

não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba

o instante inefável

A bomba

fede

A bomba

é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina

A bomba

com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve

A bomba

não destruirá a vida

O homem

(tenho esperança) liquidará a bomba.







A bruxa





A Emil Farhat



Nesta cidade do Rio,

de dois milhões de habitantes,

estou sozinho no quarto,

estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?

Ainda há pouco um ruído

anunciou vida a meu lado.

Certo não é vida humana,

mas é vida. E sinto a bruxa

presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!

E nem precisava tanto...

Precisava de um amigo,

desses calados, distantes,

que lêem verso de Horácio

mas secretamente influem

na vida, no amor, na carne.

Estou só, não tenho amigo,

e a essa hora tardia

como procurar amigo?

E nem precisava tanto.

Precisava de mulher

que entrasse nesse minuto,

recebesse este carinho,

salvasse do aniquilamento

um minuto e um carinho loucos

que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,

quantas mulheres prováveis

interrogam-se no espelho

medindo o tempo perdido

até que venha a manhã

trazer leite, jornal e calma.

Porém a essa hora vazia

como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!

Tenho tanta palavra meiga,

conheço vozes de bichos,

sei os beijos mais violentos,

viajei, briguei, aprendi.

Estou cercado de olhos,

de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me,

o que há é apenas a noite

e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!

Essa presença agitada

querendo romper a noite

não é simplesmente a bruxa.

É antes a confidência

exalando-se de um homem.





A Câmara Viajante





Que pode a câmara fotográfica?

Não pode nada.

Conta só o que viu.

Não pode mudar o que viu.

Não tem responsabilidade no que viu.

A câmara, entretanto,

Ajuda a ver e rever, a multi-ver

O real nu, cru, triste, sujo.

Desvenda, espalha, universaliza.

A imagem que ela captou e distribui.

Obriga a sentir,

A, driticamente, julgar,

A querer bem ou a protestar,

A desejar mudança.

A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.

No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica

Apesar do declínio histórico, do massacre

De formas latejantes de viço e beleza.

Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará

Na infinita desolação da terra assassinada.

E pergunta: "Podemos deixar

Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,

Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"

Este livro-câmara é anseio de salvar

O que ainda pode ser salvo,

O que precisa ser salvo

Sem esperar pelo ano 2 mil.







Acordar, Viver





Como acordar sem sofrimento?

Recomeçar sem horror?

O sono transportou-me

àquele reino onde não existe vida

e eu quedo inerte sem paixão.



Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,

a fábula inconclusa,

suportar a semelhança das coisas ásperas

de amanhã com as coisas ásperas de hoje?



Como proteger-me das feridas

que rasga em mim o acontecimento,

qualquer acontecimento

que lembra a Terra e sua púrpura

demente?

E mais aquela ferida que me inflijo

a cada hora, algoz

do inocente que não sou?



Ninguém responde, a vida é pétrea.







A Corrente





Sente raiva do passado

que o mantém acorrentado.

Sente raiva da corrente

a puxá-lo para a frente

e a fazer do seu futuro

o retorno ao chão escuro

onde jaz envilecida

certa promessa de vida

de onde brotam cogumelos

venenosos, amarelos,

e encaracoladas lesmas

deglutindo-se a si mesmas.



(in A Paixão Medida)





A Excitante Fila Do Feijão





25.X.1980



Larga, poeta, a mesa de escritório,

esquece a poesia burocrática

e vai cedinho à fila do feijão.



Cedinho, eu disse? Vai, mas é de véspera,

seja noite de estrela ou chuva grossa,

e sem certeza de trazer dois quilos.



Certeza não terás, mas esperança

(que substitui, em qualquer caso, tudo),

uma espera-esperança de dez horas.



Dez, doze ou mais: o tempo não importa

quando aperta o desejo brasileiro

de ter no prato a preta, amiga vagem.



Camburões, patrulhinhas te protegem

e gás lacrimogêneo facilita

o ato de comprar a tua cota.



Se levas cassetete na cabeça

ou no braço, nas costas, na virilha,

não o leves a mal: é por teu bem.



O feijão é de todos, em princípio,

tal como a liberdade, o amor, o ar.

Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.



Bocas oitenta mil vão disputando

cada manhã o que somente chega

para de vinte mil matar a gula.



Insiste, não desistas: amanhã

outros vinte mil quilos em pacotes

serão distribuídos dessa forma.



A conta-gotas vai-se escoando o estoque

armazenado nos porões do Estado.

Assim não falta nunca feijão-preto



(embora falte sempre nas panelas).

Método esconde-pinga: não percebes

que ele torna excitante a tua busca?



Supermercados erguem barricadas

contra esse teu projeto de comer.

Há gritos, há desmaios, há prisões.



Suspense à la Hitchcock ante as cerradas

portas de bronze, guardas do escondido

papilionáceo grão que ambicionas.



É a grande aventura oferecida

ao morno cotidiano em que vegetas.

Instante de vibrar, curtir a vida



na dimensão dramática da luta

por um ideal pedestre mas autêntico:

Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!



Caldinho de feijão para as crianças...

Feijoada, essa não: é sonho puro,

mas um feijão modesto e camarada



que lembre os tempos tão desmoronados

em que ele florescia atrás da casa

sem o olho normativo da Cobal.



Se nada conseguires... tudo bem.

Esperar é que vale - o povo sabe

enquanto leva as suas bordoadas.



Larga, poeta, o verso comedido,

a paz do teu jardim vocabular,

e vai sofrer na fila do feijão.



(in Amar Se Aprende Amando)

A Falta de Érico






Falta alguma coisa no Brasil

depois da noite de Sexta-feira

Falta aquele homem no escritório

a tirar da máquina elétrica

o destino dos seres,

a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom

caminhando entre adultos

na esperança da justiça

que tarda - como tarda!

a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,

aquela ternura contida, óleo

a derramar-se lentamente,

falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.







A falta que ama





Entre areia, sol e grama

o que se esquiva se dá,

enquanto a falta que ama

procura alguém que não há.



Está coberto de terra,

forrado de esquecimento.

Onde a vista mais se aferra,

a dália é toda cimento.



A transparência da hora

corrói ângulos obscuros:

cantiga que não implora

nem ri, patinando muros.



Já nem se escuta a poeira

que o gesto espalha no chão.

A vida conta-se, inteira,

em letras de conclusão.



Por que é que revoa à toa

o pensamento, na luz?

E por que nunca se escoa

o tempo, chaga sem pus?



O inseto petrificado

na concha ardente do dia

une o tédio do passado

a uma futura energia.



No solo vira semente?

Vai tudo recomeçar?

É a falta ou ele que sente

o sonho do verbo amar?







A Flor e a Náusea





Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

.........................................................

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse

Em vão me tento explicar, os muros são surdos

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.



Vomitar esse tédio sobre a cidade,

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para a casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

..........................................................

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não est'nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade

e lentamente passo a mão nessa forma insegura

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.





A Folha





A natureza são duas.

Uma,

tal qual se sabe a si mesma.

Outra, a que vemos. Mas vemos?

Ou é a ilusão das coisas?



Quem sou eu para sentir

o leque de uma palmeira?

Quem sou, para ser senhor

de uma fechada, sagrada

arca de vidas autônomas?



A pretensão de ser homem

e não coisa ou caracol

esfacela-me em frente à folha

que cai, depois de viver

intensa, caladamente,

e por ordem do Prefeito

vai sumir na varredura

mas continua em outra folha

alheia a meu privilégio

de ser mais forte que as folhas.



(in A Paixão Medida)





A grande dor das cousas que passaram





A grande dor das cousas que passaram

transmutou-se em finíssimo prazer

quando, entre fotos mil que se esgarçavam,

tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,

descuidados de teu e meu querer,

outra vez reflorindo, esvoaçaram

em orvalhada luz de amanhecer.

Ó bendito passado que era atroz,

e gozoso hoje terno se apresenta

e faz vibrar de novo minha vozpara exaltar o redivivo amor

que de memória-imagem se alimenta

e em doçura converte o próprio horror!







A hora do cansaço





As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.



Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.



Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.



Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.







Ainda que mal





Ainda que mal pergunte,

ainda que mal respondas;

ainda que mal te entenda,

ainda que mal repitas;

ainda que mal insista,

ainda que mal desculpes;

ainda que mal me exprima,

ainda que mal me julgues;

ainda que mal me mostre,

ainda que mal me vejas;

ainda que mal te encare,

ainda que mal te furtes;

ainda que mal te siga,

ainda que mal te voltes;

ainda que mal te ame,

ainda que mal o saibas;

ainda que mal te agarre,

ainda que mal te mates;

ainda assim te pergunto

e me queimando em teu seio,

me salvo e me dano: amor.





A Ingaia Ciência





Itabira do Mato Dentro - MG - 1902



* - * - 1987



A madureza, essa terrível prenda

que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,

todo sabor gratuito de oferenda

sob a glacialidade de uma estela,



a madureza vê, posto que a venda

interrompa a surpresa da janela,

o círculo vazio, onde se estenda,

e que o mundo converte noma cela.



A madureza sabe o preço exato

dos amores, dos ócios, dos quebrantos,

e nada pode contra sua ciência



e nem contra si mesma. O agudo olfato,

o agudo olhar, a mão, livre de encantos,

se destroem no sonho da existência.







Além da Terra, além do Céu





Além da Terra, além do Céu,

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver.











AMAR





Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer, amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal,

senão rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o cru,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e

uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor,

e na secura nossa amar a água implícita,

e o beijo tácito, e a sede infinita.







A Mão Suja





Minha mão está suja.

Preciso cortá-la.

Não adianta lavar.

A água está podre.

Nem ensaboar.

O sabão é ruim.

A mão está suja,

suja há muitos anos.



A princípio oculta

no bolso da calça,

quem o saberia?

Gente me chamava

na ponta do gesto.

Eu seguia, duro.

A mão escondida

no corpo espalhava

seu escuro rastro.

E vi que era igual

usá-la ou guardá-la.

O nojo era um só.



Ai, quantas noites

no fundo da casa

lavei essa mão,

poli-a, escovei-a.

Cristal ou diamante,

por maior contraste,

quisera torná-la,

ou mesmo, por fim,

uma simples mão branca,

mão limpa de homem,

que se pode pegar

e levar à boca

ou prender à nossa

num desses momentos

em que dois se confessam

sem dizer palavra...

A mão incurável

abre dedos sujos.



E era um sujo vil,

não sujo de terra,

sujo de carvão,

casca de ferida,

suor na camisa

de quem trabalhou.

Era um triste sujo

feito de doença

e de mortal desgosto

na pele enfarada.

Não era sujo preto

- o preto tão puro

numa coisa branca.

Era sujo pardo,

pardo, tardo, cardo.



Inútil reter

a ignóbil mão suja

posta sobre a mesa.

Depressa, cortá-la,

fazê-la em pedaços

e jogá-la ao mar!

Com o tempo, a esperança

e seus maquinismos,

outra mão virá

pura - transparente -

colar-se a meu braço.



(in José)





AMOR E SEU TEMPO





Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando, em cada poro, o céu do corpo.



É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe



valendo a pena e o preço terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.



Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.











Amor - Pois que é Palavra Essencial





Amor - pois que é palavra essencial

comece esta canção e toda a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma expandir-se até

desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,

fundido, dissolvido, volta à origem

dos seres, que Platão viu completados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara,

mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da prórpia vida,

como ativa abstração que se faz carne,

a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o climax:

é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,

nu úmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um Deus acrescenta o amor terrestre.







A Noite dissolve os Homens





A Portinari



A noite desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos.

E nem tampouco os rumores

que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas,

nas ruas onde se combate,

nos campos desfalcidos,

a noite espalhou o medo

e a total incomprensão.

A noite caiu. Tremenda,

sem esperança... Os suspiros

acusam a presença negra

que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho

na noite. A noite é mortal,

completa, sem reticências,

a noite dissolve os homens,

diz que é inutil sofrer,

a noite dissolve as pátrias,

apagou os almirantes

cintilantes! nas suas fardas

. A noite anoiteceu tudo...

O mundo não tem remédio...

Os suicidas tinham razão.



Aurora,



entretanto eu te diviso, ainda tímida,

inexperiente das luzes que vais acender

e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,

adicinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,

teus dedos frios, que ainda se não modelaram

mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,

minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,

os corpos hirtos adquirem uma fluidez,

uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer. O mundo

se tinge com as tintas da antemanhã

e o sangue que escorre é doce, de tão necessário

para colorir tuas pálidas faces, aurora.







Anúncio da Rosa





Imenso trabalho nos custa a flor.

Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.

Primavera não há mais doce, rosa tão meiga

onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.



Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,

sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,

ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,

todas histórias, todas catárticas, todas patéticas.



Vêde o caule,

traço indeciso.



Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?

Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido

que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,

pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.



Vinde, vinde,

olhai o cálice.



Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,

não, é cruel existir em tempo assim filaucioso,.

Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,

oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão.



Rosa na roda,

rosa na máquina,

apenas rósea.



Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,

pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,

e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.

Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.



Aproveitem. A última

rosa desfolha-se.



(in A Rosa do Povo)





Aos Namorados do Brasil





Dai-me, Senhor, assistência técnica

para eu falar aos namorados do Brasil.

Será que namorado escuta alguém?

Adianta falar a namorados?

E será que tenho coisas a dizer-lhes

que eles não saibam, eles que transformam

a sabedoria universal em divino esquecimento?

Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,

quando perdem os olhos

para toda paisagem,

perdem os ouvidos

para toda melodia

e só vêem, só escutam

melodia e paisagem de sua própria fabricação?

Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados

enquanto namorados. Antes, depois

são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia.

Mas quem foi namorado sabe que outra vez

voltará á sublime invalidez

que é signo de perfeição interior.

Namorado é o ser fora do tempo,

fora de obrigação e CPF,

ISS, 1FF, PASEP, INPS.

Os códigos, desarmados, retrocedem

de sua porta, as multas envergonham-se

de alvejá-lo, as guerras, os tratados

internacionais encolhem o rabo

diante dele, em volta dele. O tempo,

afiando sem pausa a sua foice,

espera que o namorado desnamore

para sempre.

Mas nascem todo dia namorados

novos, renovados, inovantes,

e ninguém ganha ou perde esta batalha.

Pois namorar é destino dos humanos,

destino que regula

nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.

E quem vive, atenção:

cumpra sua obrigação de namorar,

sob pena de viver apenas na aparência.

De ser o seu cadáver itinerante.

De não ser. De estar, ou nem estar.

O problema, Senhor, é como aprender, como exercer

a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,

e vai além de toda universidade.

Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.

E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,

por obra e graça de sua namorada.

A mulher antes e depois da Bíblia

é pois enciclopédia natural

ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,

fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.

Há que aprender com as mulheres

as finezas finíssimas do namoro.

O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre

três vezes ignorante de seu coração

e da maneira de usá-lo.

Só a mulher (como explicar?)

entende certas coisas

que não são para entender. São para aspirar

como essência, ou nem assim. Elas aspiram

o segredo do mundo.

Há homens que se cansam depressa de namorar,

outros que são infiéis à namorada.

Pobre de quem não aprendeu direito,

ai de quem nunca estará maduro para aprender,

triste de quem não merecia, não merece namorar.

Pois namorar não é só juntar duas atrações

no velho estilo ou no moderno estilo,

com arrepios, murmúrios, silêncios,

caminhadas, jantares, gravações,

fins de semana, o carro à toda ou a 80,

lancha, piscina, dia-dos-namorados,

foto colorida, filme adoidado,

rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém.

Namorar é o sentido absoluto

que se esconde no gesto muito simples,

não intencional, nunca previsto,

e dá ao gesto a cor do amanhecer,

para ficar durando, perdurando,

som de cristal na concha

ou no infinito.

Namorar é além do beijo e da sintaxe,

não depende de estado ou condição.

Ser duplicado, ser complexo,

que em si mesmo se mira e se desdobra,

o namorado, a namorada

não são aquelas mesmas criaturas

com que cruzamos na rua.

São outras, são estrelas remotíssimas,

fora de qualquer sistema ou situação.

A limitação terrestre, que os persegue,

tenta cobrar (inveja)

o terrível imposto de passagem:

"Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!

Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada

na sola dos sapatos..."

Ou senão:

"Desiste! Foge! Esquece! Esquece!"

E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.

Fogem os covardes.

Que importa? A cada hora nascem

outros namorados para a novidade

da antiga experiência.

E inauguram cada manhã

(namoramor)

o velho, velho mundo renovado.





A palavra mágica





Certa palavra dorme na sombra

de um livro raro.

Como desencantá-la?

É a senha da vida

a senha do mundo.

Vou procurá-la.



Vou procurá-la a vida inteira

no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,

não desanimo,

procuro sempre.



Procuro sempre, e minha procura

ficará sendo

minha palavra.







Aparição amorosa





Doce fantasma, por que me visitas

como em outros tempos nossos corpos se visitavam?

Tua transparência roça-me a pele, convida

a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca

um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,

mesma voz, mesmo timbre,

mesmas leves sílabas,

e aquele mesmo longo arquejo

em que te esvaías de prazer,

e nosso final descanso de camurça. Então, convicto,

ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve

e continua existindo, puro som.

Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste

e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas

e és tão real assim tão ilusório?

Já nem distingo mais se és sombra

ou sombra sempre foste, e nossa história

invenção de livro soletrado

sob pestanas sonolentas.

Terei um dia conhecido

teu vero corpo como hoje o sei

de enlaçar o vapor como se enlaça

uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,

querida ausente, a perseguir-me, suave?

Nunca pensei que os mortos

o mesmo ardor tivessem de outros dias

e no-lo transmitissem com chupadas

de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.

Tua visita ardente me desola.

Tua visita, apenas uma esmola.

Àporo






Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.



Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?

Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:



em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.







A Procura da Poesia





Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia

Diante dela, a vida é um sol estático

não aquece nem ilumina

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.



Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro.

são indiferentes

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.



Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo ds casas.



Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuve e noite, fadiga e esperança nada significam



A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto



Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir

Não te aborreças

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família.

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.



Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação

Que se dissipou, não era poesia

Que se partiu, cristal não era.



Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero

há calma e frescura ma superfície intata

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consuma

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio



Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o.

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no

espaço.



Chega mais parto e contempla as palavras

cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta

pobre ou terrível, que lhe deres:

Touxeste a chave?



Repara:

ermas de melodia e conceito,

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmida e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.





A rua diferente





Na minha rua estão cortando árvores

botando trilhos

construindo casas.



Minha rua acordou mudada.

Os vizinhos não se conformam.

Eles não sabem que a vida

tem dessas exigências brutas.



Só minha filha goza o espetáculo

e se diverte com os andaimes,

a luz da solda autógena

e o cimento escorrendo nas formas.





Atriz





A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.

Não era uma só. Era tantas.

Professorinha pobre de Piraçununga

Cleópatra e Antígona

Maria Stuart

Mary Tyrone

Marta de Albee

Margarida Gauthier e Alma Winemiller

Hannah Jelkes a solteirona

a velha senhora Clara Zahanassian

adorável Júlia

outras muitas, modernas e futuras

irreveladas.

Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo

e um mendigo esperando infinitamente Godot.

Era principalmente a voz de martelo sensível

martelando e doendo e descascando

a casca podre da vida

para mostrar o miolo de sombra

a verdade de cada um nos mitos cênicos.

Era uma pessoa e era um teatro.

Morrem mil Cacildas em Cacilda.





Aula de Português





A linguagem

na ponta da língua

tão fácil de falar

e de entender.

A linguagem

na superfície estrelada de letras,

sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,

e vai desmatando

o amazonas de minha ignorância.

Figuras de gramática, equipáticas,

atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,

em que pedia para ir lá fora,

em que levava e dava pontapé,

a língua, breve língua entrecortada

do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.





As Sem-Razões do Amor





Eu te amo porque te amo,

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.



Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.



Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.



Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.





A um ausente





Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.



Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência

de viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo, sem consulta, sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.



Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.



Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?



Tenho razão de sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mão, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.



Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da ternura e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

por que o fizeste, porque te foste.







A Vida Passada a Limpo





Itabira do Mato Dentro - MG - 1902

* - * - 1987



Ó esplêndida lua, debruçada

sobre Joaquim Nabuco, 81.

Tu não banhas apenas a fachada

e o quarto de dormir, prenda comum.



Baixas a um vago em mim, onde nenhum

halo humano ou divino fez pousada,

e me penetras, lâmina de Ogum,

e sou uma lagoa iluminada.



Tudo branco, no tempo. Que limpeza

nos resíduos e vozes e na cor

que era sinistra, e agora, flor surpresa,



já não destila mágoa nem furor:

fruto de aceitação da natureza,

essa alvura de morte lembra amor.











Bela





esta manhã sem carência de mito,

e mel sorvido sem blasfêmia.

Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,

sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé,

engulo o mar, que me engole.

Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz

azul

completa

sobre formas constituídas.

Bela

a passagem do corpo, sua fusão

no corpo geral do mundo.

Vontade de cantar. Mas tão absoluta

que me calo, repleto.







Bibliografia em poesia.





Alguma Poesia ,

Brejo das Almas ,

Sentimento do Mundo,

José,

A rosa do povo,

Novos poesmas,

A mesa,

Claro enigma,

Viola de bolso,

Fazendeiro do ar,

Ciclo,

Soneto da buquinagem,

Viola de bolso II,

Versiprosas,

Boitempo,

Nudez,

Reunião,

Menino Antigo( Boitempo II) ,

Esquecer para lembrar ( Boitempo III),

Corpo,

Amar se Aprende Amando,

Poesia errante,

O amor natural,

Paixão Medida

Farewell.





Boca





Boca: nunca te beijarei.

Boca de outro que ris de mim,

no milímetro que nos separa,

cabem todos os abismos.



Boca: se meu desejo

é impotente para fechar-te,

bem sabes disto, zombas

de minha raiva inútil.



Boca amarga pois impossível,

doce boca (não provarei),

ris sem beijo para mim,

beijas outro com seriedade.







Brinquedos para homens





Embora eu seja adulto,

não me seduzem os brinquedos eletrônicos

que a moda, irônica, me oferece.

E excogito:

Que brinquedo inventar para o adulto,

privativo dele, sangue e riso dele,

brinquedo desenganado mas eficiente?

Tenho de inventar o meu brinquedo,

mola saltando no meu íntimo,

alegria gerada por mim mesmo,

e fácil, fluida, pluma,

pétala.

Sem o pedir às máquinas e aos deuses,

que cada um invente o seu brinquedo.







Campo de flores





Deus me deu um amor no tempo de madureza,

quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.

Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,

e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.



Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos

e outros acrescento aos que amor já criou.

Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso

e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.



Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia

e cansado de mim julgava que era o mundo

um vácuo atormentado, um sistema de erros.

Amanhecem de novo as antigas manhãs

que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.



Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra

imensa e contraída como letra no muro

e só hoje presente.

Deus me deu um amor porque o mereci.

De tantos que já tive ou tiveram em mim,

o sumo se espremeu para fazer um vinho

ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.



E o tempo que levou uma rosa indecisa

a tirar sua cor dessas chamas extintas

era o tempo rriais justo. Era tempo de terra.

Onde não há jardim, as flores nascem de um

secreto investimento em formas improváveis.



Hoje tenho um amor e me faço espaçoso

para arrecadar as alfaias de muitos

amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes

e ao vê-los amorosos e transidos em torno,

o sagrado terror converto em jubilação.



Seu grão de angústia amor já me oferece

na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia

os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura

e o mistério que além faz os seres preciosos

à visáo extasiada.



Mas, porque me tocou um amor crepuscular,

há que amar diferente. De uma grave paciência

ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia

tenha dilacerado a melhor doação.

Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos

e estou vivo na luz que baixa e me confunde.







Canção Amiga





Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,

todas as mães se reconheçam,

e que fale como dois olhos.



Caminho por uma rua

que passa em muitos países.

Se não me vêem, eu vejo

e saúdo velhos amigos.



Eu distribuo um segredo

como quem ama ou sorri.

No jeito mais natural

dois carinhos se procuram.



Minha vida, nossas vidas

formam um só diamante.

Aprendi novas palavras

e tornei outras mais belas.



Eu preparo uma canção

que faça acordar os homens

e adormecer as crianças





Cantiga de viúvo





A noite caiu na minh'alma,

fiquei triste sem querer.

Uma sombra veio vindo,

veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem

que morreu há tanto tempo.



Me abraçou com tanto amor

me apertou com tanto fogo

me beijou, me consolou.



Depois riu devagarinho,

me disse adeus com a cabeça

e saiu. Fechou a porta.

Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada...



acabou.





Canto Esponjoso





Bela

esta manhã sem carência de mito,

E mel sorvido sem blasfémia.



Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,

sem, na sombra, fantasmas.



Umidade de areia adere ao pé.

Engulo o mar, que me engole.

Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz

azul

completa

sobre formas constituídas.



Bela

a passagem do corpo, sua fusão

no corpo geral do mundo.

Vontade de cantar. Mas tão absoluta

que me calo, repleto.







Canto do Rio em Sol





Guanabara, seio, braço

de a-mar:

em teu nome, a sigla rara

dos tempos do verbo mar.

Os que te amamos sentimos

e não sabemos cantar:

o que é sombra do Silvestre

sol da Urca

dengue flamingo

mitos da Tijuca de Alencar.

Guanabara, saia clara

estufando em redondel:

que é carne, que é terra e alísio

em teu crisol?

Nunca vi terra tão gente

nem gente tão florival.

Teu frêmito é teu encanto

(sem decreto) capital.

Agora, que te fitamos

nos olhos,

e que neles pressentimos

o ser telúrico, essencial,

agora sim és Estado

de graça, condado real.



II



Rio, nome sussurrante,

Rio que te vais passando

a mar de estórias e sonhos

e em teu constante janeiro

corres pela nossa vida

como sangue, como seiva

-- não são imagens exangues

como perfume na fronha

... como pupila do gato

risca o topázio no escuro.

Rio-tato-

-vista-gosto-risco-vertigem

Rio-antúrio

Rio das quatro lagoas

de quatro túneis irmãos

Rio em ã

Maracanã

Sacopenapã

Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho

de amorzinho

benzinho

dá-se um jeitinho

do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda

como quem do alto do Morro Cara de Cão

chama pelos tamoios errantes em suas pirogas

Rio, milhão de coisas

luminosardentissuavimariposas:

como te explicar à luz da Constituição?



III



Irajá Pavuna Ilha do Gato

-- emudeceram as aldeias gentílicas?

A Festa das Canoas dispersou-se?

Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José

pastoreando os fiéis da várzea?

Soou o toque do Aragão sobre a cidade?

Não não não não não não não

Rio, mágico, dás uma cabriola,

teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,

teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo

o tempo que humaniza e jovializa as cidades.

Rio novo a cada menino que nasce

a cada casamento

a cada namorado

que te descobre enquanto rio-rindo.

assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.





Neste poema Carlos Drummond de Andrade demonstra todo seu amor pela cidade do Rio de Janeiro.

Texto extraído do livro "Nova Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985, pág. 388.





Cariocas





Como vai ser este verão, querida,

com a praia, aumentada/ diminuída?

A draga, esse dragão, estranho creme

de areia e lama oferta ao velho Leme.

Fogem banhistas para o Posto Seis,

O Posto Vinte... Invade-se Ipanema

hippie e festiva, chega-se ao Leblon

e já nem rimo, pois nessa sinuca

superlota-se a Barra da Tijuca

(até que alguém se lembre

de duplicar a Barra, pesadíssima).

Ah, o tamanho natural das coisas

estava errado! O mar era excessivo,

a terra pouca. Pobre do ser vivo,

que aumenta o chão pisável, sem que aumente

a própria dimensão interior.

Somos hoje mais vastos? mais humanos?

Que draga nos vai dar a areia pura,

fundamento de nova criatura?

Carlos, deixa de vãs filosofias,

olha aí, olha o broto, olha as esguias

pernas, o busto altivo, olha a serena

arquitetura feminina em cena

pelas ruas do Rio de Janeiro

que não é rio, é um oceano inteiro

de (a) mo (r) cidade.

Repara como tudo está pra frente,

a começar na blusa transparente

e a terminar... a frente é interminável.

A transparência vai além: os ossos,

as vísceras também ficam à mostra?

Meu amor, que gracinha de esqueleto

revelas sob teu vestido preto!

Os costureiros são radiologistas?

Sou eu que dou uma de futurólogo?

Translúcidas pedidas advogo:

tudo nu na consciência, tudo claro,

sem paredes as casas e os governos...

Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.

Regressa ao cotidiano: um professor

reclama para os sapos mais amor.

Caçá-los e exportá-los prejudica

os nossos canaviais; ele, gentil,

engole ruins aranhas do Brasil,

medonhos escorpiões:

o sapo papa paca,

no mais, tem a doçura de uma vaca

embutida no verde da paisagem.

(Conservo no remorso um sapo antigo

assassinado a pedra, e me castigo

a remoer sua emplastada imagem.)

Depressa, a Roselândia, onde floriram

a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram

que novidade? Rosas de verdade,

com cheiro e tudo quanto se resume

no festival enlevo do perfume?

Busco em vão neste Rio um roseiral,

indago, pulo muros: qual!

A flor é de papel, ou cheira mal

o terreno baldio, a rua, o Rio?

A Roselândia vamos e aspiremos

o fino olor de flor em cor e albor.

Um rosa te dou, em vez de um verso,

uma rosa é um rosal; e me disperso

em quadrada emoção diante da rosa,

pois inda existe flor, e flor que zomba

desse fero contexto

de metralhadora, de seqüestro e bomba?











Carta





Bem quisera escrevê-la

com palavras sabidas,

as mesmas, triviais,

embora estremecessem

a um toque de paixão.

Perfurando os obscuros

canais de argila e sombra,

ela iria contando

que vou bem, e amo sempre

e amo cada vez mais

a essa minha maneira

torcida e reticente,

e espero uma resposta

mas que não tarde: e peço

um objeto minúsculo

só para dar prazer

e quem pode ofertá-lo;

diria ela do tempo

que faz do nosso lado;

as chuvas já secaram,

as crianças estudam,

uma última invenção

(inda não é perfeita)

faz ler nos corações,

mas todos esperamos

rever-nso bem depressa.

Muito depressa, não.

Vai-se tornando o tempo

estranhamente longo

à medida que encurta.

O que ontem disparava,

desbordado alazão,

hoje se paralisa

em esfinge de mármore,

e até o sono, o sono

que era grato e era absurdo

é um dormir acordado

numa planície grave.

Rápido é o sono, apenas,

que se vai, de mandar

notícias amorosas

quando não há amor

a dar ou receber;

quando só há lembrança,

ainda menos, pó,

menos ainda, nada,

nada de nada em tudo,

em mim mais do que em tudo,

e não vale acordar

quem acaso repousa

na colina sem árvores.

Contudo, está é uma carta.