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terça-feira, 24 de junho de 2014

O Espinhal Escolhido




Certa vez um homem interrogou o rabino Joshua Ben Karechah: “Por que Deus escolheu um espinhal para falar com Moisés?”
O rabino respondeu: “Se ele tivesse escolhido uma oliveira ou uma amoreira, você teria feito a mesma pergunta. Mas não posso deixá-lo sem uma resposta. Por isso digo que Deus escolheu um mísero e pequeno espinhal para ensinar que não há nenhum lugar na terra onde Ele não esteja presente”.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre Temperamento




Um praticante Zen foi à Bankei e pergunto-lhe aflito:
“Mestre, Eu tenho um temperamento irascível. Sou às vezes muito agressivo e acabo criando discussões e ofendendo outras pessoas. Como posso curar isso?”
“Tu possuis algo muito estranho,” replicou Bankei. “Deixe ver como é esse comportamento.”
“Bem… eu não posso mostrá-lo exatamente agora, mestre,” disse o outro, um pouco confuso.
“E quando tu a mostrarás para mim?” perguntou Bankei.
“Não sei… é que isso sempre surge de forma inesperada,” replicou o estudante.
“Então,” concluiu Bankei, “essa coisa não faz parte de tua natureza verdadeira. Se assim fosse, tu poderias mostrá-la sempre que desejasse. Quando tu nasceste não a tinhas, e teus pais não a passaram para ti. Portanto, saibas que ele não existe.”


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os Navios & a Vida




Certa vez, um homem sábio foi às docas para observar os navios entrarem e saírem do porto. Percebeu que, quando um navio saía para o alto mar, todas as pessoas no cais festejavam e desejavam boa viagem. Enquanto isso, ignorado pela multidão, outro navio entrou no porto e atracou. O sábio dirigiu-se às pessoas, dizendo: “Vocês não percebem que os seus sentimentos estão ao contrário? Quando um navio parte, não se sabe o que virá pela frente, ou qual será o seu fim. Portanto, na verdade não há motivo para celebrar. Porém, quando um navio entra no porto e regressa ao lar com segurança, este é um motivo para fazê-los sentir alegria.”
A vida é aquela viagem e nós somos o navio. Quando nasce uma criança, festejamos. Quando uma alma volta para casa, pranteamos. No entanto, se víssemos a vida na terra da mesma maneira que o sábio observava o movimento dos navios, talvez pudéssemos dizer: “O navio terminou sua jornada, enfrentou as tempestades da vida, e finalmente entrou no porto. E agora está seguro em casa (…)”


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Ensinamentos do Mago




No Tibet, antes da invasão chinesa, havia um famoso templo para onde se encaminhavam muitos candidatos a monges. Um dia chegou um candidato, muito orgulhoso de seus conhecimentos do Zen. Exigiu ser entrevistado pelo lama-chefe daquela lamaseria. O monge lhe perguntou:

– O que você quer? 

– Quero ser monge nesta lamaseria. – asseverou o candidato.

– Mas o que você sabe fazer?

– Eu sei tudo sobre o Zen. – respondeu com orgulho.

– Mostre-me então o Zen. – pediu o monge

O rapaz sentou-se e na mais perfeita posição de lótus fechou os olhos e começou a meditar. O monge observou por alguns minutos e logo disse:
– Vá embora!
O rapaz, muito aborrecido, perguntou:
– Por quê?
E o monge então explicou:
– Já temos muitas estátuas aqui, não precisamos de mais uma.
Há coisas que são tão simples que acabam nem nos interessando. Nós temos a tendência a buscar coisas que sejam complicadas, e rejeitamos o que é simples. Eu digo: a vida é curta demais para que a desperdicemos com complicações. Isso não quer dizer que deixemos de lado os desafios, porque eles nos educam e fortalecem, mas também precisamos entender que existem coisas que só são complicadas porque queremos que sejam assim, talvez até para satisfazer nosso ego.
Um dia fui questionado sobre como obter uma projeção astral, e eu respondi que era preciso desejar. Essa resposta pareceu tão simples que para muitos nem foi considerada verdade. E foram ler um livro chamado Projeciologia, que tem mais de 1000 páginas, repleto de linguagens técnicas. Vão fazer essa leitura e no fim vão descobrir: "puxa, mas era só desejar". Mas é mesmo uma questão de desejar, simples assim, sem complicações nem aquilo a que meu Mestre chama de "tecnicalidades esotéricas", aqueles "ismos", etc. O estudo da Magia está cheio dessas tecnicalidades, a maioria escritas por leigos. Não posso deixar de observar que existem muitas pessoas que seguem uma equivocadíssima filosofia de vida que diz Pra que fazer fácil se dá pra complicar?
“Há regatos no deserto, há um caminho na solidão": na simplicidade eu aprendi muito mais do que com as tecnicalidades. A gente aprende muito observando a vida. Aliás, desse jeito aprende-se tanto ou mais do que passando anos lendo livros. Há uma escola no mundo, que é o próprio mundo. Sem rejeitar a validade do ensino teórico, que é importantíssima, um magista que tenha sido formado unicamente à custa de ensino teórico não tem a mesma válida daquele que tem também o estudo prático. Há pessoas que vivem em função de livros, mas não "vivem”. Um magista vive no mundo sem ser do mundo, mas vive nesse mundo. E ele busca a simplicidade, nas coisas do mundo e nas do espírito. Há um tempo para o aprendizado teórico e outro para aprender na vida. O magista tem que ter ambas as experiências, pois que elas se complementam. Mas não devemos dispensar aquilo que é envolvido em simplicidade, porque a vida e a Magia são simples, o Ser Humano é que introduziu nelas o seu racionalismo e com ele as complicações, dando um caráter de solenidade a coisas que estão aí para serem experienciadas.
Para o bom entendedor, meia palavra basta: a maneira mais eficaz de se esconder alguma coisa importante é deixá-la à vista de todos, porque não será procurada em lugares óbvios. E isso acontece porque se sabe que há a tendência de buscar "esconderijos complicados", e o que é simples nem é considerado. Que se saiba então: na Magia isso também foi feito, e grandes mistérios e segredos não estão ocultos, nem são propriedade de Iniciados obscuros em lugares incessíveis: estão onde qualquer um poderia encontrar. Desde que tenha olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Escrito pelo Mago Daniel no Templo do Mago às 21h do dia 10 de Outubro de 1999 a.D.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ensinamentos Sobre a Verdadeira Magia




Mestre e discípulo caminhavam pela beira de uma praia discutindo a respeito da vida quando se depararam com um ninho de tartarugas-marinhas saindo dos ovos e correndo para o mar. Logo notaram que algumas haviam sido pisadas, enquanto outras eram capturadas por pequenos animais ou simplesmente morriam antes de alcançar a água. Então, perceberam que uma bem pequena já estava se debatendo com o casco virado para baixo. O Mestre abaixou-se vagarosamente e com um simples gesto, desvirou com a ponta do dedo a tartaruga, que conseguiu alcançar o mar até desaparecer por entre as espumas das ondas.

Mediante aquela ínfima atitude, o discípulo indagou reflexivo:

– Mestre, por que o Senhor fez isso? Quero dizer, seu ato não alterará nada, foi algo tão pequeno em relação à grandiosidade da Natureza de forma que acho que para fazer alguma diferença teria que ser um ato imensamente maior... O Senhor não acha?

E o Mestre simplesmente respondeu:

– Pois para AQUELA tartaruguinha um pequeno gesto do meu dedo fez toda diferença do mundo!

_________

Às vezes, através de gestos pequenos podemos fazer grandes coisas, embora essas grandes coisas só sejam grandes em relação a quem recebe nosso gesto. O fato é que existem pessoas que poderiam ser mais felizes se nós entendêssemos que poderíamos ajudá-las através de pequenas coisas. Pessoas esperam de nós um sorriso, um "bom dia!”, e até um "eu te amo!" e muitas vezes para nós isso seria algo simples de se fazer, mas nem sempre fazemos. Na Magia é preciso explicar que o magista é um homem ou mulher que nem sempre vive de grandes atos. A vida do magista não é só grandes rituais, evocações terríveis, e coisas maravilhosas. Magistas são pessoas de atos grandes e pequenos, mas todos eles igualmente nobres.

Todo magista deve ter em mente que ele não veio ao mundo à passeio, e que havia uma razão para que ele se tornasse um magista. Muitas vezes conversei com magistas que ao serem perguntados o porquê se tornaram magistas, me responderam: "Para descobrir meu Eu Superior." . Essa resposta está parcialmente correta. De fato, essa descoberta do Eu Superior também é importantíssima, mas não é o único objetivo dos estudos e dos treinamentos de nenhum magista que tenha se dedicado corretamente. Se esse fosse o único objetivo então seria egoísmo: de que adiantaria uma compreensão e conhecimentos superiores, se não partilhar com ninguém e isso jamais se converter em benefício a outras pessoas? Seria como se todas as pessoas estivessem dormindo sendo que o magista é uma pessoa que acordou, e agora a sua função é ajudar as outras pessoas a acordar também, para que veja o mundo tal qual ele é, e não como as pessoas foram condicionadas a vê-lo.
Em "O Mito da Caverna", de Platão, essa situação é bem descrita. Há ali pessoas que sempre viveram em uma escura caverna, mas uma delas consegue ir lá fora, e volta contando as maravilhas da luz do dia. As pessoas não acreditam, porque sempre viveram na escuridão e não acreditam nas coisas que aquele que viu a luz está lhes relatando. Isso não faz parte de suas realidades, desconhecem o conceito de realidade aparente e esse homem passa a ser chamado de visionário e até de louco.

A Magia se torna malvista quando magistas não-preparados resolvem tentar "despertar" os outros, contando-lhes coisas que não foram vistas e induzindo-lhes ao erro camuflado de "grandes verdades da Magia”. Não há "grandes Verdades" na Magia, tudo é muito simples, talvez simples demais, e essa simplicidade toda é que mantém ocultas muitas coisas. Um magista não precisa praticar grandes atos, mas seus atos têm que ser grandes, no sentido de que devem ter grandeza, correção e consciência. A Magia não existe para fazer a felicidade financeira de ninguém, e nenhum magista pode cobrar por seus serviços. Se considerarmos que esse magista seguiu os ritos corretos ele também não teve de pagar nada pelo que aprendeu, e por isso não se justifica que ele estabeleça preço par ajudar as pessoas. E esse ajudar poderá ser de formas até bastante simples, e mesmo não sendo magista toda pessoa tem em mãos a capacidade de fazer outras pessoas felizes.

O Ser Humano existe para ser feliz e nossa finalidade deveria ser a de proporcionar felicidade uns aos outros. Por possuir outra visão de mundo, o magista tem uma possibilidade maior de proporcionar isto às pessoas, que muitas vezes só precisam de uma pequena ajuda. Mas, o magista não pode pegar as pessoas pelas mãos e levá-las pelos caminhos, porque isso tiraria delas o senso de luta, a capacidade de buscar o próprio destino e de dar rumo à própria vida. Por isso é que eu digo: não posso lhe dar um caminho, mas posso lhe dar um começo. Acho muito correta a filosofia que diz que a quem tem fome NÃO DEVEMOS dar o peixe, e sim ensinar a pessoa a pescar, para que ela aprenda a andar com os próprios pés. O magista pode e deve ajudar as pessoas, mas é preciso ter os pés nos chão, por causa dos falsos magistas que através de uma Magia incompleta e às vezes pervertida não só afastam as pessoas de seus caminhos como também passam a se constituir para elas em uma fonte de desgraças.

Gestos pequenos também são passíveis de proporcionar felicidade aos nossos semelhantes e possivelmente mesmo sem nos darmos conta disto nós podemos ajudar a muitas pessoas. Ajudando aos outros ajudamos a nós mesmos; trazendo felicidade aos outros é a nós mesmos que tornamos felizes. Afinal, não é uma existência miserável a de alguém que nunca moveu um simples dedo em benefício de seus semelhantes, nem se importou em ajudar aos irmãos que cruzaram o seu caminho? Quem sabe se um pequeno gesto nosso poderá fazer toda diferença do mundo para alguém?

Escrito pelo Mago Daniel no Templo do Mago às 04h30min – 23/10/1999 a.D.

Marcus Deminco – O Escritor do Agora - Blog Oficial ©: A DECISÃO (Charles Chaplin)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora - Blog Oficial ©: A DECISÃO (Charles Chaplin)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Máquina de Escrever (Giuseppe Ghiaroni)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Máquina de Escrever (Giuseppe Ghiaroni)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: Café com um Amigo

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: Café com um Amigo

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Pescador e o Empresário

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Pescador e o Empresário

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Contradição

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Contradição.

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Homem no Espelho (Dale Wimbrow)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Homem no Espelho (Dale Wimbrow)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Oleiro e o Poeta.

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Oleiro e o Poeta.

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Burro No Fundo Do Poço

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Burro No Fundo Do Poço

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Sorriso de Deus

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: O Sorriso de Deus

Marcus Deminco – O Escritor do Agora - Blog Oficial ©: Parábola das 4 estações (autor desconhecido)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora - Blog Oficial ©: Parábola das 4 estações (autor desconhecido)

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Lição de Nossas Quedas

Marcus Deminco – O Escritor do Agora: A Lição de Nossas Quedas

sábado, 17 de maio de 2014

Do escritor Marcus Deminco ao Deputado Peixe Federal

Do escritor Marcus Deminco ao Deputado Peixe Federal


A Lição de Nossas Quedas





Certa manhã de domingo, como fazia habitualmente, o mestre Zady caminhava meditativo pela floresta, seguido por um dos seus discípulos. Embora bem mais velho, o mestre andava com serenas passadas firmes, enquanto o jovem aprendiz o seguia escorregando e caindo a todo instante. No entanto, a cada nova queda, o aprendiz se levantava mais irascível, cuspia no chão traiçoeiro e continuava a acompanhar seu mestre. Depois de longas horas cainhando, os dois finalmente chegaram a um lugar sagrado. Contudo, antes mesmo de fazer qualquer menção sagrada, sem cessar seus passos um só instante, o mestre simplesmente, revolveu-se e começou a regressar.
– Mas o Senhor não me ensinou absolutamente nada hoje! – dizia o aprendiz desapontado, enquanto se erguia raivoso de mais um tombo.
– Ensinei sim! – assegurou-lhe o mestre elucidando ainda – Mas parece que você não está preparado para aprender. Durante toda essa caminhada, eu tentei lhe mostrar como devemos proceder mediante os erros da vida.
– E como devemos agir?
– Da mesma maneira que você deveria ter feito com seus tombos. – respondeu o mestre. – Em vez de ficar amaldiçoando o lugar onde você caiu, deveria procurar por aquilo que o fez escorregar. Assim, não continuaria caindo.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ao Deputado Peixe Federal





domingo, 11 de maio de 2014

Trecho do Livro: Helen Palmer - Uma Sombra de Clarice Lispector





CAPÍTULO III



Barroqueira do Agreste – Bahia
(Fevereiro de 1934)


A GRANDE DISTÂNCIA da realidade dos centros urbanos, longe de qualquer vestígio de progresso e imensamente afastada de tudo aquilo que poderia ser compreendido como civilização, Lea Leopoldina era mais uma pobre cambembe emprenhada, prestes a parir mais um predestinado sertanejo azarento. À sua volta, pouquíssima história para ser contada e nenhum tipo de adornos para enfeitar o seu xexelento pardieiro de barro batido: três cuias de água salobra, brotos de palmas estorricadas e um saco de farinha de mandioca dividiam o apertado espaço na mesa de madeira crua com sabão de sapomina, folhas de macambira e um desusado pilão emborcado numa arredondada bacineta de pedra, guardando ainda as raspas das rapaduras trazidas pelos mascates dos canaviais das circunvizinhanças.
Acima dos caibros e das varas que faziam a parede engradada de taipa, o maljeitoso telhado de ripas, com uma tira grossa de embira amarrada ao centro da cumeeira, segurava num só laço de nó um leocádio apagado bem na direção do velho fogão de lenha. E presa na memória dos seus parcos pertences espalhados naqueles quatro cantos de extrema vileza, a triste lembrança de seu companheiro: Nestor a tivera abandonado, inexplicavelmente, após tomar conhecimento da sua inesperada gravidez.
Do lado de fora, onde fumaça manava em vez de flores e onde nada germinava pelas estreitas fendas cravadas na superfície do chão estéril, pouca coisa sobrevivia da crueldade de uma duradoura estiagem. Rodeados por xiquexiques, quipás, seixos, pederneiras, juazeiros e mandacarus, formigas, besouros, calangos e lagartos escondiam-se num devastado matagal pálido e amortecido. Ao redor deles, pedregosas areias de rios secos, cisternas vazias, lavouras abolidas e ossos de animais mortos eram sobrevoados por outros tantos insetos invictos e descorados.
Caia mais um fim de tarde e o céu avermelhava-se por inteiro, levando consigo as minguadas sombras dos resistentes pés de umbu, jataí e jericó. Parecia mais um entardecer inexpressivo – como todos os outros marasmados e silentes daquele lugarejo fosco – não fossem aquelas repentinas vozes cantarolando mais alto que os cadenciados apitos das cigarras entocadas nos calhaus dos roçados e trauteando mais modestas que os finos gorjeios dos cinzentos pássaros que voavam rumo ao infindo horizonte de mato desbotado: Nós somos as parteiras tradicionais que em grupo vamos trabalhar! Todas juntas sempre unidas, muitas vidas vamos salvar...