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sexta-feira, 10 de junho de 2011

O Homem do Espelho

Quando conseguir tudo que quer na luta pela vida
E o mundo fizer de você rei por um dia,
Procure um espelho, olhe para si mesmo
E ouça o que aquele Homem tem a dizer.

Porque não será de seu pai, mãe ou mulher
O julgamento que terá que absolvê-lo.
O veredicto mais importante em sua vida
Será o do Homem que o olha do espelho.

Alguns podem julgá-lo modelo,
Considerá-lo um ser maravilhoso,
Mas ele dirá que você é apenas um impostor,
Se não puder fitá-lo dentro dos olhos.

É a ele que deve agradar, pouco importa os demais,
Pois será ele quem ficará ao seu lado até o fim.
E você terá superado os testes mais perigosos e difíceis
Se o Homem no espelho puder chamá-lo de amigo.

Na estrada da vida, você pode enganar o mundo inteiro,
E receber palmadinhas no ombro ao longo do caminho,
Mas, seu último salário será de dores e lágrimas,
Se enganou o Homem que o fita no espelho.

Dale WimBrow

Veja o Vídeo:

quarta-feira, 25 de maio de 2011

MUDANÇA

Os rios correm, as montanhas sofrem erosão e as civilizações ascendem e decaem. Os ciclos das mudanças são intermináveis. As mudanças geológicas e as evolutivas -as mais gradativas de todas - modelaram o mundo que conhecemos hoje. Sociedades e culturas apareceram e desapareceram, cada qual acrescentando uma nova dimensão à vida humana. Em apenas duzentos anos, os Estados Unidos cresceram, de uma fronteira primitiva, para se transformarem na nação tecnologicamente mais avançada e poderosa da Terra. Os acontecimentos internacionais também refletem mudanças, na medida em que lideres e tendências surgem e passam adiante, abrindo espaço para novos lideres e novas tendências. O valor da moeda flutua, crianças nascem, pessoas morrem - nada permanece igual.

No entanto, embora todos nós mudemos a cada dia, raramente achamos fácil mudar da maneira que queremos ou que precisamos mudar. Mesmo quando não somos felizes, muitas vezes parece mais fácil, ou até melhor, nos segurarmos ao que temos e permanecermos os mesmos. Optamos por ignorar as oportunidades de preenchimento e de felicidade que a ação positiva pode oferecer. Agarramo-nos à ideia de que não somos capazes de nos adaptar às solicitações do nosso trabalho e da vida; ou, quem sabe, acreditamos já ter mudado o suficiente. Se somos criticados por levarmos uma vida vazia, podemos até mesmo assumir uma atitude defensiva, apresentando desculpas, alegando que somos o que somos, que não podemos mudar. É fácil gastar toda uma vida deste modo, recusando-nos a assumir responsabilidade pelo nosso crescimento pessoal.

Nós não desejamos fazer o esforço necessário para mudar, mas lutar contra as mudanças requer um esforço ainda maior. Tentar evitar mudanças em nossa vida é como tentar nadar contra a correnteza de um rio. Este modo de ser nos exaure e nos frustra, até o ponto em que uma qualidade de derrota começa a permear as nossas vidas. Todavia, poderíamos, em vez disto, optar por tirar proveito da natureza transitória da existência e aprender a participar do fluxo da vida, em sintonia com os processos de mudança.

A mudança é natural e saudável e não algo a ser temido ou evitado. Se examinarmos com atenção as mudanças que se operam em nossas vidas, veremos que o processo de mudança é aquilo que dá luz a todas as coisas boas. Quando nós nos permitimos mudar, a vida rapidamente nos conduz para além de períodos difíceis, em direçâo a momentos de alegria e vitalidade. Uma vez que vejamos como as mudanças estão continuamente atuando sobre nós e também dentro de nós, podemos aprender a usar a energia que elas contêm para direcionar as nossas vidas.

Pensar sobre como mudamos ao longo do tempo é algo que nos ajuda a aprender como apreciar e desenvolver nossa capacidade de mudança. Você não é a mesma pessoa que era há dez anos. No que está diferente? Como era antes? A sua pessoa atual e a sua pessoa anterior seriam amigas, caso se encontrassem? O que elas gostariam ou deixariam de gostar uma na outra? Como é que você chegou a ser o indivíduo que é hoje? Seus ideais, seus pensamentos e opiniões mudaram; pelo quê eles foram substituídos e por que razão? Revendo as mudanças ocorridas, você pode sentir o gosto do crescimento e dos progressos que conseguiu, assim como pode apreciar os benefícios que o processo de mudança trouxe à sua vida.

Quando você percebe o quanto mudou e se desenvolveu, mesmo sern tentar conscientemente, compreende o quanto poderia crescer se fizesse um esforço efetivo para mudar. Uma reflexão sobre a sua vida atual em relação à pessoa que você se tornará no futuro pode ser muito útil. Será que suas ações atuais contribuirão para melhorar sua vida, enriquecendo-a em termos de experiências positivas e de crescimento? O que você pensará quando olhar para trás daqui a dez anos? O quanto terá colaborado para provocar as mudanças que terão ocorrido? Ao questionar sua vida deste modo, você pode ganhar uma perspectiva mais clara acerca da sua motivação para mudar e crescer.

Trazer mudanças positivas para sua vida pode ser uma questão simples, pois elas começam a acontecer assim que você decide expandir o seu potencial. Na próxima vez em que você se vir preso a um padrão que o limita, deixe de lado suas expectativas ou ideias fixas e abra-se para tudo o que pode ser aprendido com um novo modo de ser. Tome a energia que antes empregava para reforçar seus velhos padrões e use-a para lidar com as suas dificuldades, rápida e eficientemente. Quando você se posiciona desta maneira, descobre que não há limites para a sua energia criativa nem para a amplitude da sua experiência.

De forma calma e constante, vá atravessando o seu dia, mantendo uma quietude interna. Quando você está relaxado e tranquilo por dentro, pode reconhecer os padrões que causam dificuldades assim que aparecem e pode também permitir que eles o ensinem a mudar. Sempre que se encontrar numa situação difícil, faça uma pausa antes de reagir. Seus atos não teriam, de algum modo, contribuído para a situação? Será que você está procurando desculpas para si mesmo? Se estiver, aceite-se como é... e, ao mesmo tempo, altere sua reação típica. Se estiver prestes a reagir emocionalmente, dê um passo atrás e olhe a situação de uma forma mais tranquila. Escolha uma reação mais saudável. Hábitos antigos podem ser mudados e qualidades positivas, estimuladas e desenvolvidas. A opção de mudar está sempre aberta pois crescimento e desenvolvimento são uma questão de escolha. Tudo o que temos a fazer é decidir.

à medida que mudamos nossos hábitos e padrões, compreendemos que os problemas podem nos ensinar a crescer. Todavia, como nossos problemas muitas vezes são dolorosos e incómodos, a tendência natural é tentar evitá-los; buscamos maneiras de escapar de situações difíceis ou de contornar os obstáculos que encontramos. Nossos problemas, porém, são como nuvens: ainda que pareçam perturbar a serenidade de um céu limpo, elas contêm a umidade vivificante que nutre o crescimento. Quando encaramos nossos problemas sem rodeios e os atravessamos por inteiro, descobrimos novas maneiras de ser. Juntamos força e confiança para lidarmos com dificuldades futuras. A vida passa a ser um desafio cheio de significado que nos conduz a um maior conhecimento e a um estado desperto. Descobrimos que, quanto mais aprendemos, mais crescemos; quanto mais desafios encontramos, mais força e atenção plena adquirimos. Quando vivemos em consonância com o processo de mudança, o simples ato de viver é, por si, valioso.

Nos momentos em que se sentir profundamente desanimado e desejar desistir ou quando pensar que é muito tarde na vida para começar a fazer quaisquer mudanças, não pare aí. Encoraje-se e verá que poderá sustentar sua motivação para aprender, crescer e usar seu potencial de forma criativa. Ao invés de permanecer preso a velhos padrões, você poderá desafiá-los e rompê-los. Ao fazer isso, ampliará suas capacidades e aumentará a riqueza da sua experiência, muito mais do que poderia imaginar. Em vez de restringir suas ambições, você pode utilizar a energia das suas atitudes negativas e fundi-la numa força de mudança, deliberada e concentrada.

Quando sabemos que é possível optar por mudar, queremos ver o futuro chegar; podemos, de fato, caminhar adiante em direção ao futuro e crescer tão rapidamente quanto quisermos. Confiantes em nossa capacidade de promover nossa saúde e força através do nosso próprio esforço, tornamo-nos um exemplo para os que nos cercam, incentivando-os também a mudar. Este apoio, este compartilhar da experiência é um dos maiores recursos que a humanidade possui.

Quando estamos abertos a mudanças, vemos que a nossa mente é uma fonte geradora de alegria e felicidade e que nosso corpo é cheio de energia. Corpo e mente, juntos, formam um bom veículo; cada qual é uma asa que nos possibilita voar para fazer face aos desafios da vida. Aprendemos a apreciar o quanto somos afortunados por termos a capacidade de usar nosso corpo e mente para aprofundar e enriquecer nosso trabalho, nossos relacionamentos e nossas vidas.

Reflita sobre os valores que estão se desenvolvendo: um coração aberto, uma disposição para encarar a vida de forma direta e confiança em nós mesmos. A vida pode ser vivida como se fosse apenas mais uma tarefa rotineira; no entanto, quando decidimos fazer uso das múltiplas oportunidades que temos para mudar em sentidos positivos, podemos tornar nossas vidas saudáveis e vibrantes. Desenvolvemos uma apreciação genuína de nós mesmos, uma sensação de bem estar que se irradia por todas as nossas ações. Quando conseguimos uma mudança, podemos vê-la e orgulhamo-nos dela. Os outros também se sentem encorajados ao ver mudanças acontecendo em nós. Quando apoiamos o crescimento uns dos outros desta maneira, o trabalho se torna tranquilo e nossos corações, cheios de alegria.

Tarthang Tulku é um monge budista que conseguiu escapar do Tibet após a invasão chinesa. Chegou aos Estados Unidos, onde, na Califórnia, criou o Instituto Nymgma para o estudo do Dharma (doutrina tibetana). Fez muito sucesso entre executivos americanos, tendo escrito, para o mundo organizacional, o livro "O Caminho da Habilidade", de onde foi retirado este texto.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostuma-se a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Acostuma-se para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti. Eu sei, mas não devia. Editora Rocco: Rio de Janeiro 1996.

SÓ R$ 25,00

Um homem chegou a casa tarde do trabalho. Cansado e irritado, depara-se com seu filho de 5 anos o esperando na porta .

– Pai, posso fazer-lhe uma pergunta?

– O que é? – respondeu impaciente.

– Quanto você ganha em uma hora?

– Isso não é da sua conta. Porque você esta perguntando uma coisa dessas?

– disse num tom agressivo.

– Eu só quero saber. Por favor, me diga. Quanto você ganha em uma hora?

– Se você quer saber, eu ganho R$ 50 por hora.

– Ah! – exclamou o menino com sua cabeça para baixo – Pai, pode me emprestar R$ 25,00?

– Essa é a única razão pela qual você me perguntou isso? Pensa que é assim que você pode conseguir algum dinheiro para comprar um brinquedo ou algum outro disparate? Vá direto para o seu quarto e vá para a cama. Pense sobre o quanto você está sendo egoísta! Eu não trabalho duramente todos os dias para tais infantilidades.

O menino caminhou calado para o seu quarto e fechou a porta. O homem sentou-se numa poltrona e refletiu ainda mais nervoso sobre aquela indagação do filho.

– Como ele ousa fazer essa pergunta só para ganhar algum dinheiro?

Após cerca de uma hora, o homem tinha mais calmo consegue pensar melhor: “Talvez houvesse algo que ele realmente precisasse comprar com esses R$ 25,00... E ele realmente não pedia dinheiro com muita freqüência.”

Levantou-se menos intolerante, foi ao quarto do filho, abriu a porta e perguntou:

– Você está dormindo?

– Não pai. Estou acordado!

– Eu estive pensando melhor, talvez eu tenha sido muito duro com você. – admitiu justificando. – Tive um dia difícil e acabei descarregando em você. Aqui estão os R$ 25 que você me pediu.

O menino se levantou sorrindo.

– Obrigado pai! – agradeceu animado, enquanto retirava do seu travesseiro alguns trocados amassados. Vendo que o menino já tinha algum dinheiro, o pai começou a se enfurecer novamente.

– Por que você pediu mais dinheiro se você já tinha?

– Porque eu não tinha o suficiente. – afirmou, mas após contar suas economias constatou alegremente:

– Papai... Agora eu tenho R$ 50! Posso comprar uma hora do seu tempo? Por favor, chegue em casa mais cedo amanhã. Eu gostaria muito de jantar com você.

Não se esqueça de compartilhar esses R$ 50 no valor do seu tempo com alguém que você ama. Se morrermos amanhã, a empresa para a qual estamos trabalhando, poderá facilmente substituir-nos em uma questão de horas. Mas a família e amigos que deixamos para trás irão sentir essa perda para o resto de suas vidas.

domingo, 24 de abril de 2011

O OLEIRO E O POETA


Há muito tempo, na cidade de Zahlé, ocorreu uma rixa entre um jovem poeta, de nome Fauzi, e um oleiro, chamado Nagib.
Para evitar que o tumulto se agravasse, eles foram levados à presença do juiz do lugarejo. O juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou primeiramente o oleiro, que parecia muito exaltado:
– Disseram-me que você foi agredido? Isso é verdade?
– Sim, senhor juiz. – confirmou o oleiro – Fui agredido em minha própria casa por este poeta. Eu estava, como de costume, trabalhando em minha oficina, quando ouvi um ruído e a seguir um baque. Quando fui à janela pude constatar que o poeta Fauzi havia atirado com violência uma pedra, que partiu um dos vasos que estava a secar perto da porta. Exijo uma indenização! – gritava o oleiro.
O juiz voltou-se para o poeta e perguntou-lhe serenamente:
– Como justifica o seu estranho proceder?
– Senhor juiz, o caso é simples. – disse o poeta. Há três dias eu passava pela frente da casa do oleiro Nagib, quando percebi que ele declamava um dos meus poemas. Notei com tristeza que os versos estavam errados. Meus poemas eram mutilados pelo oleiro. Aproximei-me dele e ensinei-lhe a declamá-los da forma certa, o que ele fez sem grande dificuldade. No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar e ouvi novamente o oleiro a repetir os mesmos versos de forma errada. Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a maneira correta e pedi-lhe que não tornasse a deturpá-los. Hoje, finalmente, eu regressava do trabalho quando, ao passar diante da casa do oleiro, percebi que ele declamava minha poesia estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos. Não me contive. Apanhei uma pedra e parti com ela um de seus vasos. Como vê, meu comportamento nada mais é do que uma represália pela conduta do oleiro.
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz dirigiu-se ao oleiro e declarou:
– Que esse caso, Nagib, sirva de lição para o futuro. Procure respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as suas. Se você equivocadamente julgava-se no direito de quebrar o verso do poeta, achou-se também o poeta egoisticamente no direito de quebrar o seu vaso.
E a sentença foi a seguinte:
“Determino que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância obtida pela venda deverá ser dividida em partes iguais entre ambos.”
A notícia sobre a forma inesperada como o sábio juiz resolveu a disputa espalhou-se rapidamente. Foram vendidos muitos vasos feitos por Nagib adornados com os versos do poeta. Em pouco tempo Nagib e Fauzi prosperaram muito. Tornaram-se amigos e cada qual passou a respeitar e a admirar o trabalho do outro. O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, enquanto o poeta encantava-se com os vasos admiráveis do oleiro.

sábado, 23 de abril de 2011

Sócrates e a fofoca


Na Grécia antiga, Sócrates era um mestre reconhecido por sua sabedoria. Certo dia, o grande filósofo se encontrou com um conhecido que lhe disse:

- Sócrates, sabe o que acabo de ouvir sobre um de seus alunos?

- Um momento, respondeu Sócrates. Antes de me dizer, gostaria que você passasse por um pequeno teste. Chama-se "Teste dos 3 filtros".

- Três filtros?

- Sim, continuou Sócrates. Antes de me contar o que quer que seja sobre meu aluno, é bom pensar um pouco e filtrar o que vais me dizer.

O primeiro filtro é o da Verdade. Estás completamente seguro de que o que me vai dizer é verdade?

- Bem... Acabo de saber...

- Então, sem saber se é verdade, ainda assim quer me contar?

Vamos ao segundo filtro, que é o da Bondade. Quer me contar algo de bom sobre meu aluno?

- Não, pelo contrário.

- Então, interrompeu Sócrates, queres me contar algo de ruim sobre ele, que não sabes se é verdade!

Ora veja! Ainda podes passar no teste, pois ainda resta o terceiro filtro, que é o da Utilidade. O que queres me contar vai ser útil para mim?

- Acho que não muito.

- Portanto, concluiu Sócrates, se o que você quer me contar pode não ser verdade, não ser bom e pode não ser útil, então para que contar?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre a morte e o morrer

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Rubem Alves – Folha de São Paulo – 12/10/03.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Parábola da felicidade

Após uma caminhada exaustiva pelo campo, os quatro amigos sentaram à beira do caminho, embaixo da sombra da velha jaqueira. Era ela a única árvore numa plantação de melancias. Era como se representasse com dignidade a espécie da árvore, num planeta onde alguns humanos não importam em destruí-las em nome de um progresso duvidoso. Aquele era o local preferido dos rapazes: jacas e melancias à vontade! Aquele dia era especial: terminaram o curso e, provavelmente, seria a última vez que caminhariam juntos. Embora nem admitissem, estavam conscientes do momento e não perceberam o estranho brilho pairando sobre a copa da jaqueira.

Não fiquem tristes, nós nos veremos novamente....

Os amigos se entreolharam, espantados.

- Quem disse isso? - perguntou Eduardo, intrigado.

A voz era suave e nem parecida com nenhum deles.

- Ouvi! - confirmou Pedro. - Parece que veio lá de cima.

- Também escutei - disse Silas.

- Estranho. - comentou Antônio. Acho que pegamos sol demais pelo caminho.

- Ei! - exclamou Silas. Vocês estão notando uma luz estranha no alto da árvore?

Todos olharam para cima.

- É verdade. Vai ver é um disco voador!

Escutaram a voz novamente:

- Não é brincadeira! Eu posso atender um pedido de cada um de vocês para que sejam felizes....

O susto foi grande. Uma árvore falante! Árvores não falam! Ou falam? O conhecimento científico, impõe-se de maneira preponderante, de tal forma que acabamos por crer apenas no que conseguimos pesar, medir, reduzir, ao mesmo tempo em que passamos a recusar tudo o que não se enquadre nesses experimentos científicos.

- Vo.... Você é um tipo de árvore da felicidade? - perguntou Antônio.

- Não importa agora. Façam logo seus pedidos...

- Quero ser o homem mais rico do mundo - falou Antônio, superando os instantes de incredulidade. - Ninguém consegue ser feliz sem dinheiro.

Silas pediu:

- Quero ser o homem mais amado do mundo, já que dinheiro não traz felicidade.

Eduardo falou:

- Eu quero ser muito inteligente! E também jovem! Mocidade e inteligência são, sem dúvida, as maiores felicidades.

Pedro pediu:

- Eu quero ser o homem mais famoso, com glória.

E todos riram. Rapidamente a copa da jaqueira mudou de cor, soltou estranho zunido e, por fim, subiu velozmente para o céu, deixando um rastro luminoso e os quatro amigos boquiabertos.

O TEMPO PASSOU..... Cada um seguiu seu caminho. Conforme pediram, seus desejos foram realizados, embora não tivessem conseguido a tão ansiada felicidade.....

Antônio tornou-se o homem mais rico, graças a uma estranha sorte no mundo dos negócios. Acumulara fortuna, mas a riqueza só lhe trouxe problemas. Nunca tinha certeza se as pessoas que conviviam ao seu redor estavam interessadas nele ou na sua fortuna, e por isso ia se tornando taciturno, entediado, egoísta, isolando-se de todos. Só saía protegido por guarda-costas, por medo de seqüestros.

Silas, por sua vez, era muito amado. Ainda que fizesse as piores maldades, seus fanáticos admiradores sorriam para ele e lhe adoravam. Mas sentia-se muito só. Não fazia diferença como tratava as pessoas: o resultado era o mesmo. Tinha muitas mulheres, mas não amava nenhuma. O amor das pessoas, sem que fizesse nada para conquistá-lo, tornou-o cruel e perverso. Sentia prazer em maltratar as pessoas.

Eduardo permanecia jovem e inteligente. Era requisitado para palestras pelo mundo todo. Governantes solicitavam sua sabedoria. Mas era infeliz e solitário. Era alvo constante da inveja das pessoas. Coisas simples como sair à rua ou ter amigos, era impossível agora. Vivia recluso, por evitar os jornalistas e a milhares de convites para apresentações em público.

Antônio, Silas e Pedro viam a morte como libertadora de tanta infelicidade e frustração. Para Eduardo, sempre jovem, pensava ele mesmo dar fim a sua vida infeliz.

1990.... 1996..... 2000.... 2003.... 2008...... Embora nunca mais tivessem se encontrado depois daquele dia, os quatro mantinham o hábito de olhar o céu em noites estreladas, à procura de um estranho brilho esverdeado. Um dia, os quatro largaram tudo e fugiram. Viram-se novamente no local da velha jaqueira.

- Fomos enganados. Mas o que podemos fazer agora? E choraram, abraçados um ao outro.

- Foram vocês que escolheram assim!

- A voz! Maldita! Maldita! Você nos enganou com sua conversa de felicidade! - esbravejou Pedro.

- Vocês se enganaram. Todos sempre se enganam, quando acham que para ser feliz é preciso alguma condição como dinheiro, inteligência, mocidade, amor ou glória....

- Pelo amor de Deus! Filosofia barata não! Já estou farto de conselhos - falou Antônio.

- Você prometeu felicidade, mas hoje, olhe para nós: somos os homens mais infelizes do mundo!

- Vocês quiseram ser felizes. Fizeram seus pedidos e foram atendidos. Mas esqueceram que a FELICIDADE NÃO PODE SER POSSUÍDA... TEM QUE SER CONQUISTADA, ASSIM COMO O AMOR E A LIBERDADE. Cada pessoa sobre a Terra é um ser único e imprevisível. Não existem fórmulas ou soluções que sirvam para todos. Cada um precisa escolher o seu próprio caminho e o seu jeito de caminhar! Vocês terão uma nova oportunidade...

- E como será essa nova oportunidade? - perguntou Pedro.

Mas não ouviram resposta. De novo o rastro prateado confundiu-se com o brilho das estrelas.

- Já é noite! - surpreendeu-se Silas. - Mas como? Será que cochilamos os quatro ao mesmo tempo? Eram novamente jovens, ainda cansados pela caminhada, a última que faziam como internos do colégio.

- Engraçado... Aconteceu alguma coisa que não consigo me lembrar..... - disse Antônio. Os quatro levantaram-se e já iam pôr-se a caminho, quando Antônio percebeu um pedaço de papel esverdeado pregado na jaqueira.

- Um bilhete! E é para nós! - verificou Silas. Ninguém sabia quem tinha deixado aquilo.

AMIGOS QUERIDOS:

Ninguém precisa de riqueza, poder, fama, mocidade, inteligência, ou qualquer outra coisa para ser feliz. A felicidade não pode ser comprada. Ela é fruto de nosso compromisso com a paz, a justiça, a alegria, o equilíbrio entre os seres do planeta, pois não é só a nossa felicidade que importa, mas a dos que virão depois de nós e de nossos filhos. Ser feliz é isso: aproveitar intensamente este presente cotidiano - A VIDA - vivê-la plenamente e permitir que os outros também façam o mesmo. Afinal, vivemos um dia de cada vez e quem deixa seu tempo presente preocupado com o que ainda não aconteceu ou angustiado pelo que já passou, perde a oportunidade de ser feliz AQUI E AGORA e, um dia, sem que se saiba quando, será tarde para voltar atrás. No caminho de volta, entre milhares de estrelas, havia agora um brilho esverdeado, cuja luz parecia ter compartilhado daquele estranho acontecimento...


Vilmar Berna

O PREÇO DA PREGUIÇA


Um velho sábio tentava ensinar ao seu povo como trabalhar e ser cauteloso ao mesmo tempo. Para ele, nada de bom merece uma nação, cujo povo reclama passivamente esperando que os outros resolvam seus problemas.

Certa noite, enquanto todos dormiam, ele pôs uma enorme pedra na estrada, impedindo a passagem. Em seguida, escondeu-se e ficou observando tudo de longe. Primeiro apareceu um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes. Todavia, ele se desviou da pedra e saiu praguejando: “Por que esses preguiçosos não mandam retirar essa pedra da estrada”.

Logo depois, surgiu um jovem soldado que tropeçou na pedra. Irritou-se, praguejou, reclamou, mas nada fez para desobstruir o caminho. E assim, todos os outros que passavam por lá resmungavam, reclamavam, mas não faziam absolutamente nada para retirar aquela pedra da estrada.

No fim de tarde, apareceu a filha do moleiro que, embora muito cansada, resolveu tentar remover sozinha a grande pedra. Empurrou, empurrou, puxou para cá, puxou para lá e depois de tanto insistir conseguiu livrar o caminho, colocando a pedra na lateral da estrada. Contudo, para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra. Ergueu-a. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Na sua tampa havia os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra do caminho”.

Curiosa, abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro. Ficou muito feliz e retornou para sua casa. Quando o fazendeiro e o soldado souberam do ocorrido, correram para o local e revolveram o pó da estrada com os pés, na esperança de encontrar ainda algum pedaço de ouro. Mas, nada acharam. Nesse instante, o sábio caminhou até eles e disse:

– Meus amigos... Com freqüência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos reclamar em alto e bom som enquanto nos desviamos deles se assim preferirmos, ou podemos erguê-los e descobrir o que eles significam. A DECEPÇÃO É NORMALMENTE O PREÇO DA PREGUIÇA.

Texto adaptado do livro As mais belas parábolas de todos os tempos – de Alexandre Rangel.

domingo, 20 de março de 2011

A decisão – Charles Chaplin



Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim.

O PODER DO AUTOCONTROLE


Conta a lenda, que um velho sábio, tido como mestre da paciência, era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde um homem conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu com a intenção de desafiar o mestre. E o homem não poupou insultos....

Chegou até a jogar algumas pedras em direção ao sábio, cuspiu e gritou todos os tipos de ofensas. Durante horas ele fez de tudo para provocá-lo, mas o sábio permaneceu impassível. No final da tarde, já exausto e sentindo-se humilhado, o homem deu-se por vencido e foi embora...

Impressionados, os alunos perguntaram ao mestre como ele pudera suportar tanta indignidade. Aí o mestre perguntou:

- Se alguém chega até você com um presente e você não o aceita, a quem pertence o presente?

- A quem tentou entregá-lo. Respondeu um dos discípulos.

- O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava!

Aquele que domina os outros é forte. Aquele que domina a si mesmo é poderoso. Lao Tsé

terça-feira, 15 de março de 2011

ANTIDEPRESSIVO (José Felice Deminco)


Jorge Amado e Eu


Em 60 anos de vida, fiquei órfão três vezes. A primeira foi quando Glauber Rocha, nem dois anos mais velho do que eu, morreu e me deixou desarvorado em Portugal, onde convivêramos em seus últimos dias. A segunda foi quando meu pai, Manoel Ribeiro, morreu e perdi de vez o tapinha nas costas dado por ele, nas raras ocasiões em que sua severidade lhe permitia agradar-se de algo que eu tinha feito. A terceira vez foi na noite de segunda-feira passada, quando morreu Jorge Amado e estou aqui, desnorteado novamente, agora que nunca mais vou poder ouvir seu bom humor, às vezes brincalhonamente irônico, manifestar-se nas muitas lições que me deu, na paciência e generosidade que sempre foram marca de seu temperamento.

Com quem vou conversar agora, na mais desarmada confiança que se pode ter, a quem mais vou contar minhas dúvidas e hesitações, de quem mais vou ouvir macetes e percalços desta vida de contador de histórias, quem mais me olhará — como olhava para todos nós, os jovens de quem, sem o menor paternalismo, mas como uma espécie de irmão mais velho, se tornou amigo e infatigável incentivador — com o orgulho ancho e benevolente de um técnico de futebol, diante da equipe que conseguiu formar? Para quem vou telefonar e pedir juízo, conselhos e sensatez? Por que se vão todas as minhas referências, me deixando cada vez mais só neste mundo, onde tudo indica que ficarei mais um tempo?

Talvez pareça presunçoso eu querer falar no universo que foi e é Jorge Amado através de meu ponto de vista. Mas para falar na persona literária, política e social dele, haverá quem fale melhor do que eu. De especial no que tenho a dizer existe somente a amizade e o amor fraterno que nos uniu durante uns 40 anos e é disso que posso falar. Posso testemunhar sobre a grandeza e a generosidade de seu gênio. Pois o chamo de gênio, no sentido que esta palavra tinha antigamente, antes de enfraquecer-se pelo uso descomedido.

Quem mais, senão um gênio, teria criado toda uma nação, teria dado forma, expressão e identidade a uma terra e uma cultura como a Bahia, assim legando aos baianos e aos brasileiros em geral, pois a Bahia pertence a todos os brasileiros, um patrimônio inestimável? A Bahia não pode ser compreendida — e, por via de conseqüência, o Brasil não pode ser inteiramente compreendido — sem Jorge Amado e Dorival Caymmi, esse outro gênio de quem só podemos também ter orgulho. Dois fortíssimos pilares da cultura nacional residem na obra deles e, agora que eles já abriram caminho, tudo parece fácil e até óbvio. É como na história de um ignorante que foi assistir a uma apresentação de “Hamlet” e depois comentou, decepcionado, que não passava de um apanhado de lugares-comuns: ser ou não ser, eis a questão; o resto é silêncio; há algo de podre no Reino da Dinamarca; há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua filosofia; e assim por diante. A Bahia desabrochou sob as mãos de artesãos amorosos e de insuperável sensibilidade, como Jorge e Caymmi. Pela primeira vez os negros, os pobres, os humildes, os marginalizados foram trazidos maciçamente, através de uma singularíssima empatia e uma riqueza narrativa incomparável, para o proscênio das nossas artes — e nunca mais a cultura nacional foi a mesma.

Nós aprendemos a nos menosprezar e vivemos treinando isso o tempo todo. Há quem não veja, quem não consiga quase glandularmente não ver, que Jorge Amado não foi um dos mais importantes escritores do Brasil, mas um dos maiores autores do século, sob todos os títulos, a começar pelo fato de que, para o mundo culto e, de certa forma, para o grande público de muitos países, praticamente encarnava o Brasil e bem poucos escritores podem aspirar a esse tipo de galardão. Ele, com altivez e dignidade, nos representava, era como um símbolo da afirmação nacional, era o nosso escritor.

Mas isso tudo é e será visto, pois o patrimônio que Jorge nos deixou é perene e indelével, entrou na nossa alma, e a perspectiva histórica ainda lhe dará o relevo que efetivamente merece e que alguns ainda lhe negam, estreitando e tentando apequenar a estatura indestrutível de sua obra e sua vida, cujos ideais o levaram a quatro prisões, ao exílio e à incompreensão. Sempre disse que seu personagem era o povo e por isso, com mal-disfarçado desdém, há quem o chame de populista. Mas vá lá que fosse, ele mesmo não dava nenhuma pelota para isso, até gostava. Eu estava na Bahia para sua despedida e vi o povo nas ruas, aplaudindo seu escritor com emoção. Muitos entre eles nem lêem, mas todos sabem que perderam algo de muito importante, que felizmente viverá sempre na obra que aí está.

Acabei me alongando mais do que queria, em seara que outros explorarão muito melhor do que eu. Queria mesmo falar sobre aquilo em que tenho autoridade: nossa amizade. Cacá Diegues disse à imprensa que nós todos somos produto do que ele inventou, queremos ser o projeto que sua obra representa para o Brasil. No avião em que voltávamos da Bahia, Caetano Veloso me disse a mesma coisa. Heródoto escreveu que o Egito é um dom do Nilo e nós somos um dom de Jorge. De minha parte, eu sei bem. Foi ele quem primeiro acreditou em mim, desde os meus 17 anos, foi ele que, me vendo registrar-me num hotel, olhou o item onde eu declarava timidamente que minha profissão era jornalista, pegou a ficha, rasgou-a e disse:

— Jornalista é muito bom, mas não é o que você é. Bote aí “escritor”, você é escritor.

Foi ele que me acompanhou durante todo esse tempo, enchendo minha bola onde quer que chegasse ou a que veículo de imprensa falasse. Foi ele quem me chamou a atenção, sempre carinhosamente, para meus erros, minhas decisões mal pensadas, até para meu descuido com a saúde. A sabedoria e o bem-querer com que sempre me orientou não me deixarão nunca, sou um privilegiado maiúsculo, com essa convivência acima de tudo enriquecedora e enobrecedora. Não posso avaliar tudo o que devo a Jorge, direta e indiretamente. Só sei que tenho saudades dele e das muitas horas que passamos juntos e sei que vou atravessar o resto da vida com estas saudades.


Texto publicado por João Ubaldo Ribeiro no jornal "O Globo" em 12/08/2001 – seis dias após a morte de Jorge Amado.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O VELHO ÍNDIO CHEROKEE



Certa noite, um velho índio Cherokee relatou ao seu neto sobre uma batalha que acontece dentro das pessoas. Ele disse:

– Meu neto, a batalha é entre dois lobos que existem dentro de todos nós. Um é mau: é a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o orgulho falso, a superioridade e o ego. O outro é bom: é a alegria, a paz, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão, e a fé.

Confuso, o neto refletiu por alguns minutos e perguntou ao avô:

– E qual dos dois lobos vence?

O velho índio parou, fitou-lhe nos olhos e respondeu:

– Aquele que nós escolhermos alimentar mais.