sexta-feira, 23 de abril de 2010

Celebrando a incoerência


Enquanto invisíveis, mas verdadeiros cidadãos soteropolitanos, espremidos em abrigos improvisados, ainda tentam sobreviver após as chuvas que levaram suas casas, seus parcos pertences e sua pouca dignidade, a Câmara Municipal da Cidade, próxima a Avenida "Alice in Wonderland" (Alice no País das Maravilhas), em um planeta longe demais da realidade, promove festa para conceder ao narrador da Rede Globo, Galvão Bueno, o título de cidadão de Salvador.

Ainda que – divergindo dos extraterrestres idealizadores da cerimônia surreal – o próprio Galvão Bueno tenha demonstrado sobriedade ao declarar: “... Não me sinto merecedor dessa homenagem”. E, embora eu concorde plenamente com ele, nada pode ser feito para curar a cegueira crônica de nossos políticos. Agora, mesmo sem desejar, Galvão Bueno tem a chave da Cidade, ao passo que muitos soteropolitanos, sequer têm as chaves de suas casas. Resta-nos apenas, celebrar a incoerência humana.

VAMOS CELEBRAR A ESTUPIDEZ HUMANA. A ESTUPIDEZ DE TODAS AS NAÇÕES.
O MEU PAÍS E SUA CORJA DE ASSASSINOS, COVARDES, ESTUPRADORES E LADRÕES...

VAMOS CELEBRAR A ESTUPIDEZ DO POVO. NOSSA POLÍCIA E TELEVISÃO
VAMOS CELEBRAR NOSSO GOVERNO E NOSSO ESTADO QUE NÃO É NAÇÃO...
CELEBRAR A JUVENTUDE SEM ESCOLAS, AS CRIANÇAS MORTAS. CELEBRAR NOSSA DESUNIÃO...

...VAMOS CELEBRAR NOSSA TRISTEZA. VAMOS CELEBRAR NOSSA VAIDADE...
VAMOS COMEMORAR COMO IDIOTAS A CADA FEVEREIRO E FERIADOTODOS OS MORTOS NAS ESTRADAS. OS MORTOS POR FALTA DE HOSPITAIS...
VAMOS CELEBRAR NOSSA JUSTIÇA, A GANÂNCIA E A DIFAMAÇÃO


VAMOS CELEBRAR OS PRECONCEITOS, O VOTO DOS ANALFABETOSCOMEMORAR A ÁGUA PODRE E TODOS OS IMPOSTOS
QUEIMADAS, MENTIRAS E SEQÜESTROS...
NOSSO CASTELO DE CARTAS MARCADAS... O TRABALHO ESCRAVO... NOSSO PEQUENO UNIVERSO


TODA A HIPOCRISIA E TODA A AFETAÇÃO, TODO ROUBO E TODA INDIFERENÇAVAMOS CELEBRAR EPIDEMIAS. É A FESTA DA TORCIDA CAMPEÃ...
VAMOS CELEBRAR A FOME, NÃO TER A QUEM OUVIR, NÃO SE TER A QUEM AMARVAMOS ALIMENTAR O QUE É MALDADE, VAMOS MACHUCAR O CORAÇÃO...

VAMOS CELEBRAR NOSSA SAUDADE, COMEMORAR A NOSSA SOLIDÃO...
VAMOS FESTEJAR A INVEJA, A INTOLERÂNCIA, A INCOMPREENSÃOVAMOS FESTEJAR A VIOLÊNCIA E ESQUECER A NOSSA GENTE QUE TRABALHOU HONESTAMENTE A VIDA INTEIRA E AGORA NÃO TEM MAIS DIREITO A NADA...


VAMOS CELEBRAR A ABERRAÇÃO DE TODA A NOSSA FALTA DE BOM SENSO, NOSSO DESCASO POR EDUCAÇÃOVAMOS CELEBRAR O HORROR DE TUDO ISTO COM FESTA, VELÓRIO E CAIXÃOTÁ TUDO MORTO E ENTERRADO AGORA. JÁ QUE TAMBÉM PODEMOS CELEBRARA ESTUPIDEZ DE QUEM CANTOU ESSA CANÇÃO...

PERFEIÇÃO – RENATO RUSSO


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Cesar Cielo vai nadar no Maracanã?



Será que o prefeito e o governador do Rio de Janeiro foram informados que a copa do mundo de 2014 trata-se de uma competição de futebol ou eles estão adotando algum tipo de estratégia secreta para oferecer ao campeão mundial Cesar Cielo – recém contratado pelo Flamengo – a chance de treinar na maior piscina do mundo?


Pelo visto, durante o período da Copa, teremos que torcer muito mais para não chover do que pela própria Seleção Brasileira de Futebol.

Mortos participarão do próximo carnaval baiano

Embora eu não compreenda como, em 35 mil leitos disponíveis entre hotéis e pousadas (A Tarde/13-01-2010) dormiram os 500 mil turistas que visitaram salvador durante os seis dias de carnaval (Secretaria Estadual de Turismo, 2010). Compreendo menos ainda como eles ocuparam apenas 84% desses leitos – conforme declarou o secretário de Turismo, Domingos Leonelli.


Valendo-me desses dados e fazendo uma força extrema para ser ignorante, façamos uma breve consideração: 500 mil turistas ÷ por 6 (dias de folia) = aprox. 83 mil. E se a cidade dispõe de 35 mil leitos e 84% deles foram ocupados = 24.400. Ainda assim, teríamos diariamente, algo em torno de 58.600 turistas sem teto.


Abusando da minha boa vontade em querer acreditar nisso tudo e cogitando os meus possíveis erros de cálculos, conjecturemos – absurdamente hipotético que – 40.000 desses turistas tenham alugado apartamentos, pernoitado em motéis, acampados na Praça Castro Alves, ficado na casa de conhecidos, ou hospedados em albergues e pensões clandestinas, os outros 18.600 turistas dormiram ao relento, ficaram de virote, foram abduzidos ou ficaram nas casas do Prefeito, do Governador e do Secretário de Turismo?


Devo admitir, entretanto, que estou imensamente mais preocupado com o nosso SUPERAVIT de mortalidade e violência no carnaval: em 2008 foram registradas 1.224 ocorrências policiais, em 2009, 1.150 e em 2010, apenas 770. Isso sem contar que – incrivelmente surreal – há 3 anos não foi registrada nenhuma morte.

Se esses extraordinários dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública forem mesmo verdadeiros – o que acho pouco provável – indubitavelmente, os mortos deverão participar dos próximos carnavais de Salvador. E como predizia Darcy Ribeiro, no seu livro, O Povo Brasileiro (1995):


"[...] não contando com séries estatísticas confiáveis para o passado – se não as temos nem no presente –, faremos uso aqui, vastamente, do que eu chamo demografia hipotética. Vale dizer, séries históricas compostas com base nos poucos dados concretos e completadas com o que parece ser verossímil"

“Eu pretendo, dessa vez, sair em algum bloco” – declarou João Ninguém, morto enquanto curtia a pipoca no carnaval de 2006.


“Há tempos venho juntando dinheiro pra sair no chiclete” – assegurou Fugêncio, enterrado no cemitério Jardim da Saudade.


“Eu é que não vou novamente!”. – asseverou uma das vítimas do carnaval de 2008 que, não foi contabilizada nos dados divulgados anualmente pela Secretaria de Segurança Pública.


“Devemos direcionar parte de nossas vendas nos cemitérios da cidade.” – disse-me Alfredinho, presidente da Associação dos Cambistas Credenciados para Revender Abadas.