quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mortos participarão do próximo carnaval baiano

Embora eu não compreenda como, em 35 mil leitos disponíveis entre hotéis e pousadas (A Tarde/13-01-2010) dormiram os 500 mil turistas que visitaram salvador durante os seis dias de carnaval (Secretaria Estadual de Turismo, 2010). Compreendo menos ainda como eles ocuparam apenas 84% desses leitos – conforme declarou o secretário de Turismo, Domingos Leonelli.


Valendo-me desses dados e fazendo uma força extrema para ser ignorante, façamos uma breve consideração: 500 mil turistas ÷ por 6 (dias de folia) = aprox. 83 mil. E se a cidade dispõe de 35 mil leitos e 84% deles foram ocupados = 24.400. Ainda assim, teríamos diariamente, algo em torno de 58.600 turistas sem teto.


Abusando da minha boa vontade em querer acreditar nisso tudo e cogitando os meus possíveis erros de cálculos, conjecturemos – absurdamente hipotético que – 40.000 desses turistas tenham alugado apartamentos, pernoitado em motéis, acampados na Praça Castro Alves, ficado na casa de conhecidos, ou hospedados em albergues e pensões clandestinas, os outros 18.600 turistas dormiram ao relento, ficaram de virote, foram abduzidos ou ficaram nas casas do Prefeito, do Governador e do Secretário de Turismo?


Devo admitir, entretanto, que estou imensamente mais preocupado com o nosso SUPERAVIT de mortalidade e violência no carnaval: em 2008 foram registradas 1.224 ocorrências policiais, em 2009, 1.150 e em 2010, apenas 770. Isso sem contar que – incrivelmente surreal – há 3 anos não foi registrada nenhuma morte.

Se esses extraordinários dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública forem mesmo verdadeiros – o que acho pouco provável – indubitavelmente, os mortos deverão participar dos próximos carnavais de Salvador. E como predizia Darcy Ribeiro, no seu livro, O Povo Brasileiro (1995):


"[...] não contando com séries estatísticas confiáveis para o passado – se não as temos nem no presente –, faremos uso aqui, vastamente, do que eu chamo demografia hipotética. Vale dizer, séries históricas compostas com base nos poucos dados concretos e completadas com o que parece ser verossímil"

“Eu pretendo, dessa vez, sair em algum bloco” – declarou João Ninguém, morto enquanto curtia a pipoca no carnaval de 2006.


“Há tempos venho juntando dinheiro pra sair no chiclete” – assegurou Fugêncio, enterrado no cemitério Jardim da Saudade.


“Eu é que não vou novamente!”. – asseverou uma das vítimas do carnaval de 2008 que, não foi contabilizada nos dados divulgados anualmente pela Secretaria de Segurança Pública.


“Devemos direcionar parte de nossas vendas nos cemitérios da cidade.” – disse-me Alfredinho, presidente da Associação dos Cambistas Credenciados para Revender Abadas.

Um comentário:

...Laís Spósito... disse...

Querido Marcus, realmente, as autoridades insistem em tratar-nos como ignorantes, e, porque não dizer, como burros. Cabe a nós acreditarmos!

Que bom que você está fazendo a sua parte!

Esse é um dos motivos pelo qual te admiro tanto!!

Beijos

Lai