quarta-feira, 25 de maio de 2011

MUDANÇA

Os rios correm, as montanhas sofrem erosão e as civilizações ascendem e decaem. Os ciclos das mudanças são intermináveis. As mudanças geológicas e as evolutivas -as mais gradativas de todas - modelaram o mundo que conhecemos hoje. Sociedades e culturas apareceram e desapareceram, cada qual acrescentando uma nova dimensão à vida humana. Em apenas duzentos anos, os Estados Unidos cresceram, de uma fronteira primitiva, para se transformarem na nação tecnologicamente mais avançada e poderosa da Terra. Os acontecimentos internacionais também refletem mudanças, na medida em que lideres e tendências surgem e passam adiante, abrindo espaço para novos lideres e novas tendências. O valor da moeda flutua, crianças nascem, pessoas morrem - nada permanece igual.

No entanto, embora todos nós mudemos a cada dia, raramente achamos fácil mudar da maneira que queremos ou que precisamos mudar. Mesmo quando não somos felizes, muitas vezes parece mais fácil, ou até melhor, nos segurarmos ao que temos e permanecermos os mesmos. Optamos por ignorar as oportunidades de preenchimento e de felicidade que a ação positiva pode oferecer. Agarramo-nos à ideia de que não somos capazes de nos adaptar às solicitações do nosso trabalho e da vida; ou, quem sabe, acreditamos já ter mudado o suficiente. Se somos criticados por levarmos uma vida vazia, podemos até mesmo assumir uma atitude defensiva, apresentando desculpas, alegando que somos o que somos, que não podemos mudar. É fácil gastar toda uma vida deste modo, recusando-nos a assumir responsabilidade pelo nosso crescimento pessoal.

Nós não desejamos fazer o esforço necessário para mudar, mas lutar contra as mudanças requer um esforço ainda maior. Tentar evitar mudanças em nossa vida é como tentar nadar contra a correnteza de um rio. Este modo de ser nos exaure e nos frustra, até o ponto em que uma qualidade de derrota começa a permear as nossas vidas. Todavia, poderíamos, em vez disto, optar por tirar proveito da natureza transitória da existência e aprender a participar do fluxo da vida, em sintonia com os processos de mudança.

A mudança é natural e saudável e não algo a ser temido ou evitado. Se examinarmos com atenção as mudanças que se operam em nossas vidas, veremos que o processo de mudança é aquilo que dá luz a todas as coisas boas. Quando nós nos permitimos mudar, a vida rapidamente nos conduz para além de períodos difíceis, em direçâo a momentos de alegria e vitalidade. Uma vez que vejamos como as mudanças estão continuamente atuando sobre nós e também dentro de nós, podemos aprender a usar a energia que elas contêm para direcionar as nossas vidas.

Pensar sobre como mudamos ao longo do tempo é algo que nos ajuda a aprender como apreciar e desenvolver nossa capacidade de mudança. Você não é a mesma pessoa que era há dez anos. No que está diferente? Como era antes? A sua pessoa atual e a sua pessoa anterior seriam amigas, caso se encontrassem? O que elas gostariam ou deixariam de gostar uma na outra? Como é que você chegou a ser o indivíduo que é hoje? Seus ideais, seus pensamentos e opiniões mudaram; pelo quê eles foram substituídos e por que razão? Revendo as mudanças ocorridas, você pode sentir o gosto do crescimento e dos progressos que conseguiu, assim como pode apreciar os benefícios que o processo de mudança trouxe à sua vida.

Quando você percebe o quanto mudou e se desenvolveu, mesmo sern tentar conscientemente, compreende o quanto poderia crescer se fizesse um esforço efetivo para mudar. Uma reflexão sobre a sua vida atual em relação à pessoa que você se tornará no futuro pode ser muito útil. Será que suas ações atuais contribuirão para melhorar sua vida, enriquecendo-a em termos de experiências positivas e de crescimento? O que você pensará quando olhar para trás daqui a dez anos? O quanto terá colaborado para provocar as mudanças que terão ocorrido? Ao questionar sua vida deste modo, você pode ganhar uma perspectiva mais clara acerca da sua motivação para mudar e crescer.

Trazer mudanças positivas para sua vida pode ser uma questão simples, pois elas começam a acontecer assim que você decide expandir o seu potencial. Na próxima vez em que você se vir preso a um padrão que o limita, deixe de lado suas expectativas ou ideias fixas e abra-se para tudo o que pode ser aprendido com um novo modo de ser. Tome a energia que antes empregava para reforçar seus velhos padrões e use-a para lidar com as suas dificuldades, rápida e eficientemente. Quando você se posiciona desta maneira, descobre que não há limites para a sua energia criativa nem para a amplitude da sua experiência.

De forma calma e constante, vá atravessando o seu dia, mantendo uma quietude interna. Quando você está relaxado e tranquilo por dentro, pode reconhecer os padrões que causam dificuldades assim que aparecem e pode também permitir que eles o ensinem a mudar. Sempre que se encontrar numa situação difícil, faça uma pausa antes de reagir. Seus atos não teriam, de algum modo, contribuído para a situação? Será que você está procurando desculpas para si mesmo? Se estiver, aceite-se como é... e, ao mesmo tempo, altere sua reação típica. Se estiver prestes a reagir emocionalmente, dê um passo atrás e olhe a situação de uma forma mais tranquila. Escolha uma reação mais saudável. Hábitos antigos podem ser mudados e qualidades positivas, estimuladas e desenvolvidas. A opção de mudar está sempre aberta pois crescimento e desenvolvimento são uma questão de escolha. Tudo o que temos a fazer é decidir.

à medida que mudamos nossos hábitos e padrões, compreendemos que os problemas podem nos ensinar a crescer. Todavia, como nossos problemas muitas vezes são dolorosos e incómodos, a tendência natural é tentar evitá-los; buscamos maneiras de escapar de situações difíceis ou de contornar os obstáculos que encontramos. Nossos problemas, porém, são como nuvens: ainda que pareçam perturbar a serenidade de um céu limpo, elas contêm a umidade vivificante que nutre o crescimento. Quando encaramos nossos problemas sem rodeios e os atravessamos por inteiro, descobrimos novas maneiras de ser. Juntamos força e confiança para lidarmos com dificuldades futuras. A vida passa a ser um desafio cheio de significado que nos conduz a um maior conhecimento e a um estado desperto. Descobrimos que, quanto mais aprendemos, mais crescemos; quanto mais desafios encontramos, mais força e atenção plena adquirimos. Quando vivemos em consonância com o processo de mudança, o simples ato de viver é, por si, valioso.

Nos momentos em que se sentir profundamente desanimado e desejar desistir ou quando pensar que é muito tarde na vida para começar a fazer quaisquer mudanças, não pare aí. Encoraje-se e verá que poderá sustentar sua motivação para aprender, crescer e usar seu potencial de forma criativa. Ao invés de permanecer preso a velhos padrões, você poderá desafiá-los e rompê-los. Ao fazer isso, ampliará suas capacidades e aumentará a riqueza da sua experiência, muito mais do que poderia imaginar. Em vez de restringir suas ambições, você pode utilizar a energia das suas atitudes negativas e fundi-la numa força de mudança, deliberada e concentrada.

Quando sabemos que é possível optar por mudar, queremos ver o futuro chegar; podemos, de fato, caminhar adiante em direção ao futuro e crescer tão rapidamente quanto quisermos. Confiantes em nossa capacidade de promover nossa saúde e força através do nosso próprio esforço, tornamo-nos um exemplo para os que nos cercam, incentivando-os também a mudar. Este apoio, este compartilhar da experiência é um dos maiores recursos que a humanidade possui.

Quando estamos abertos a mudanças, vemos que a nossa mente é uma fonte geradora de alegria e felicidade e que nosso corpo é cheio de energia. Corpo e mente, juntos, formam um bom veículo; cada qual é uma asa que nos possibilita voar para fazer face aos desafios da vida. Aprendemos a apreciar o quanto somos afortunados por termos a capacidade de usar nosso corpo e mente para aprofundar e enriquecer nosso trabalho, nossos relacionamentos e nossas vidas.

Reflita sobre os valores que estão se desenvolvendo: um coração aberto, uma disposição para encarar a vida de forma direta e confiança em nós mesmos. A vida pode ser vivida como se fosse apenas mais uma tarefa rotineira; no entanto, quando decidimos fazer uso das múltiplas oportunidades que temos para mudar em sentidos positivos, podemos tornar nossas vidas saudáveis e vibrantes. Desenvolvemos uma apreciação genuína de nós mesmos, uma sensação de bem estar que se irradia por todas as nossas ações. Quando conseguimos uma mudança, podemos vê-la e orgulhamo-nos dela. Os outros também se sentem encorajados ao ver mudanças acontecendo em nós. Quando apoiamos o crescimento uns dos outros desta maneira, o trabalho se torna tranquilo e nossos corações, cheios de alegria.

Tarthang Tulku é um monge budista que conseguiu escapar do Tibet após a invasão chinesa. Chegou aos Estados Unidos, onde, na Califórnia, criou o Instituto Nymgma para o estudo do Dharma (doutrina tibetana). Fez muito sucesso entre executivos americanos, tendo escrito, para o mundo organizacional, o livro "O Caminho da Habilidade", de onde foi retirado este texto.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostuma-se a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Acostuma-se para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti. Eu sei, mas não devia. Editora Rocco: Rio de Janeiro 1996.

SÓ R$ 25,00

Um homem chegou a casa tarde do trabalho. Cansado e irritado, depara-se com seu filho de 5 anos o esperando na porta .

– Pai, posso fazer-lhe uma pergunta?

– O que é? – respondeu impaciente.

– Quanto você ganha em uma hora?

– Isso não é da sua conta. Porque você esta perguntando uma coisa dessas?

– disse num tom agressivo.

– Eu só quero saber. Por favor, me diga. Quanto você ganha em uma hora?

– Se você quer saber, eu ganho R$ 50 por hora.

– Ah! – exclamou o menino com sua cabeça para baixo – Pai, pode me emprestar R$ 25,00?

– Essa é a única razão pela qual você me perguntou isso? Pensa que é assim que você pode conseguir algum dinheiro para comprar um brinquedo ou algum outro disparate? Vá direto para o seu quarto e vá para a cama. Pense sobre o quanto você está sendo egoísta! Eu não trabalho duramente todos os dias para tais infantilidades.

O menino caminhou calado para o seu quarto e fechou a porta. O homem sentou-se numa poltrona e refletiu ainda mais nervoso sobre aquela indagação do filho.

– Como ele ousa fazer essa pergunta só para ganhar algum dinheiro?

Após cerca de uma hora, o homem tinha mais calmo consegue pensar melhor: “Talvez houvesse algo que ele realmente precisasse comprar com esses R$ 25,00... E ele realmente não pedia dinheiro com muita freqüência.”

Levantou-se menos intolerante, foi ao quarto do filho, abriu a porta e perguntou:

– Você está dormindo?

– Não pai. Estou acordado!

– Eu estive pensando melhor, talvez eu tenha sido muito duro com você. – admitiu justificando. – Tive um dia difícil e acabei descarregando em você. Aqui estão os R$ 25 que você me pediu.

O menino se levantou sorrindo.

– Obrigado pai! – agradeceu animado, enquanto retirava do seu travesseiro alguns trocados amassados. Vendo que o menino já tinha algum dinheiro, o pai começou a se enfurecer novamente.

– Por que você pediu mais dinheiro se você já tinha?

– Porque eu não tinha o suficiente. – afirmou, mas após contar suas economias constatou alegremente:

– Papai... Agora eu tenho R$ 50! Posso comprar uma hora do seu tempo? Por favor, chegue em casa mais cedo amanhã. Eu gostaria muito de jantar com você.

Não se esqueça de compartilhar esses R$ 50 no valor do seu tempo com alguém que você ama. Se morrermos amanhã, a empresa para a qual estamos trabalhando, poderá facilmente substituir-nos em uma questão de horas. Mas a família e amigos que deixamos para trás irão sentir essa perda para o resto de suas vidas.